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Mito e sonho

 

 

 

 

Quer escutemos, com desinteressado deleite, a arenga (semelhante a um sonho) de algum feiticeiro de olhos avermelhados do Congo, ou leiamos, com enlevo cultivado, sutis traduções dos sonetos do místico Lao-Tsé; quer decifremos o difícil sentido de um argumento de Santo Tomás de Aquino, quer ainda percebamos, num relance, o brilhante sentido de um bizarro conto de fadas esquimó, é sempre com a mesma história - que muda de forma e não obstante é prodigiosamente constante - que nos deparamos, aliada a uma desafiadora e persistente sugestão de que resta muito mais por ser experimentado do que será possível saber ou contar.

Esta é a abertura do capítulo "Mito e sonhos" do livro "O herói de mil faces" de Joseph Campbell. Incrível como nas mais variadas culturas alguns enredos parecem se repetir e em cada um desses enredos a história carrega uma alma que acaba por afetar a nossa alma também. São enredos que transpõem épocas, geografia, culturas e religiões. Como se houvesse uma raiz única sendo a alma da história, onde o tronco desta árvore fosse o enredo e que este se ramificasse em vários galhos, sendo cada galho a história adotada por determinada cultura. Cada galho com suas peculiaridades, com mais ou menos folhas e estas secas ou mais verdes, com flores ou até frutos, mas... todos da mesma árvore e raiz.

Campbell diz que: "as religiões, filosofias, artes, formas sociais do homem primitivo e histórico, descobertas fundamentais da ciência e da tecnologia e os próprios sonhos que nos povoam o sono surgem do círculo básico e mágico do mito".

São símbolos presentes, latentes e constantemente ativados na psique humana e seja tanto na psique individual quanto na coletiva. Na analogia anterior situo uma força latente como sendo a raiz ou alma, os arquétipos presente numa psique coletiva como sendo o tronco ou enredo e os galhos como as histórias ou sonhos, ou seja, o conteúdo ativado na cultura local, religião e/ou psique individual.

O mito ou o sonho como sendo a expressão da alma latente e exercendo a função de ativar tal alma, proporcionando um diálogo desta com o nosso psiquismo. Nas religiões e antigas civilizações, os sonhos eram tidos como uma ligação com o outro mundo ou espiritual, com os deuses. Hoje os sonhos são vistos como a expressão do inconsciente. O mito exerce este mesmo papel. O mito ativa essa força existente no psiquismo e é expressado na cultura e religião através de histórias com ligações com o espiritual, mágico. A ativação dessa força ou alma é necessária e quando não há a expressão através do mito, a válvula de escape de tal pressão acontece nos sonhos. Assim como o corpo precisa de certos elementos para funcionar e estar em equilíbrio, a alma humana também precisa que essa força latente seja ativada para seu funcionamento e equilíbrio.

Mito: a possibilidade de sonhar com os olhos abertos. Seja ao comermos a maçã do paraíso, ou ao tentarmos roubar o fogo dos deuses feito Prometeu, ou ao repetirmos o conflito de Édipo, ou ao adentrarmos labirintos para matar a fera feito Teseu, o que se reafirma no enredo de nossas histórias é que há uma alma comum a todos motivando-nos a mover as letras com que construímos a história de nossa vida e que é comum a todos. Enredos que parecem ter sido escritos por um autor cuja imagem e semelhança fomos feitos e, quando não nos afinamos com o sentido natural dessa alma em todos nós, é como se voássemos em direção ao sol com asas em que as penas foram coladas com cera e, sem nem ao menos percebermos, novamente estamos sonhando com os olhos abertos ou reavivando  um mito escrito por certo "Autor".

Paulo Rogério da Motta

Referência:

O herói de mil faces (Joseph Campbell)