contador de visitas online

visitas ao Euniverso

Eunivers

Conhecimento

 

Vídeos para um Euniverso melhor

 

O Youtube do Euniverso


 


Motivos, emoções e personalidade

Alexei N. Leontiev

 

Na psicologia contemporânea, o termo "motivo" (motivação, fatores motivadores) pode dizer respeito a fenômenos completamente diferentes. Impulsos instintivos, inclinações e apetites biológicos, assim como a experiência de emoções, de interesses e de desejos são todos denominados "motivos"; dentro desta enumeração mista de motivos, podem ser encontradas certas coisas, tais como objetivos ou ideais de vida, mas, também, coisas do tipo de um choque elétrico. Não há necessidade de se investigar todos esses conceitos e termos confusos que caracterizam a condição atual do problema que envolve os motivos. O problema da análise psicológica da personalidade requer a consideração apenas das questões principais. 

Fundamentalmente, trata-se de uma questão que diz respeito às relações entre motivos e necessidades. Eu já disse que a necessidade real é sempre uma necessidade de alguma coisa, que, no nível psicológico, as necessidades são mediadas pela reflexão psíquica, e de duas maneiras. Por um lado, os objetos que respondem às necessidades do sujeito aparecem diante dele dentro de suas características sensoriais objetivas. Por outro lado, as condições da necessidade, nos casos mais simples, assinalam-se e são sensorialmente refletidas pelo sujeito como resultado das ações de estímulos de recepção interna. Aqui, a mudança mais importante que caracteriza a transição para o nível psicológico consiste no começo da conexão ativa das necessidades com os objetos que as satisfazem.

Acontece que, na própria condição de necessidade do sujeito, o objeto que é capaz de satisfazer a necessidade não é claramente delineado. Até o momento de sua primeira satisfação, a necessidade "não conhece" seu objeto; ele ainda precisa ser revelado. Só como resultado dessa revelação, é que a necessidade adquire sua objetividade e o objeto percebido (representado, imaginado) vem a adquirir sua atividade provocativa e diretiva como função; isto é, torna-se um motivo.

Este jeito de entender os motivos parece até certo ponto limitado, e as necessidades parecem estar sendo eliminadas da psicologia. Mas não é o que acontece. Não são as necessidades que desaparecem da psicologia, mas somente suas abstrações - as necessidades "nuas" do sujeito, não objetivamente satisfeitas. Essas abstrações vêm à tona como resultado do fato de se isolarem as necessidades da atividade objetiva do sujeito, com o que elas adquirem, sozinhas, sua concretude psicológica.

Compreende-se que o sujeito, enquanto indivíduo, nasce com uma porção de necessidades. Mas deixe-me repetir mais uma vez: as necessidades, enquanto força interna, só podem ser realizadas na atividade. Em outras palavras, a necessidade aparece, em princípio, só como uma condição, um pré-requisito para a atividade, porém, assim que o sujeito começa a agir, ocorre imediatamente sua transformação, e a necessidade deixa de ser aquilo que era virtualmente, "em si mesma". Quanto mais prossegue o desenvolvimento da atividade, mais esse pré-requisito é convertido em seu resultado.

A transformação das necessidades dá-se de forma distinta mesmo no nível de evolução dos animais: como resultado da ocorrência de uma mudança e com a ampliação do círculo de objetos que respondem às necessidades e dos métodos de sua satisfação, as próprias necessidades se desenvolvem. Isto acontece porque as necessidades têm a capacidade de serem concretizadas dentro de uma variedade potencialmente bastante ampla de objetos, os quais se tornam estímulos de atividade para um animal, proporcionando à atividade uma direção determinada. Por exemplo, quando aparecem no ambiente novos tipos de alimento e velhos tipos são eliminados, a necessidade de alimento continua a ser satisfeita e, adicionalmente, passa a incorporar em si um novo conteúdo, ou seja, torna-se diferente. Dessa forma, o desenvolvimento das necessidades dos animais ocorre por meio do desenvolvimento de suas atividades em relação a um círculo de objetos cada vez maior; compreende-se que a mudança no conteúdo objetivo concreto das necessidades conduz a uma mudança nos métodos de sua satisfação, também.

Certamente, esta afirmação geral requer muitas estipulações e muitas explicações, particularmente no que diz respeito às questões que envolvem as chamadas necessidades funcionais. Mas, no momento, não estamos falando disso. O ponto principal, aqui, é o isolamento da ocorrência da transformação das necessidades através dos objetos dentro do processo de seu consumo. E isto tem um significado primordial para a compreensão da natureza das necessidades humanas.

De forma distinta do desenvolvimento das necessidades nos animais, o qual depende de uma ampliação do círculo dos objetos naturais que eles consomem, as necessidades humanas são geradas pelo desenvolvimento da produção. Afinal, a produção é também diretamente consumo, o qual cria a necessidade. Em outras palavras, o consumo é mediado pela necessidade de um objeto, sua percepção ou sua apresentação mental. Nesta, em sua forma refletida, o objeto aparece como o motivo ideal, internamente gerado.

No entanto, na psicologia, os motivos são muito freqüentemente considerados de forma separada do elemento principal, que é a dualidade implícita na produção do consumidor, a qual os gera; isto leva à explicação unilateral das ações humanas baseadas diretamente nas necessidades humanas. Neste caso, muito freqüentemente, a afirmação de Engels é citada como fundamento, porém fora de seu contexto, que lida apenas com o papel do trabalho na formação do homem, incluindo, naturalmente, também suas necessidades. A compreensão marxista está longe de considerar as necessidades como o ponto inicial e principal. Eis o que Marx escreve com relação a isso: "Como uma necessidade, a necessidade em si é o momento interno da atividade produtiva. Mas a atividade produtiva (ênfase do autor) é o ponto inicial da realização e, portanto, também seu momento dominante, o ato no qual todo o processo volta a ocorrer novamente. O indivíduo produz um objeto e, através de seu consumo, retorna-o de novo para si...."

Desta maneira, estamos diante de dois esquemas básicos que expressam a conexão entre necessidade e atividade. O primeiro produz a idéia de que o ponto inicial é a necessidade e, por essa razão, o processo como um todo é expresso dentro do ciclo: necessidade>atividade>necessidade. Nele, como nota L.Seve, realiza-se o "materialismo das necessidades", que corresponde à representação pré-marxista em que a esfera do consumo é básica. O outro esquema, que contradiz o primeiro, é um esquema cíclico: atividade>necessidade>atividade. Este esquema, que corresponde ao conceito marxista de necessidade, também é fundamental para a psicologia, uma vez que "nenhuma concepção baseada na idéia de um único móvel, que em essência precedesse a atividade em si, pode exercer um papel inicial capaz de servir como uma base adequada para a teoria científica da personalidade humana."

A idéia de que as necessidades humanas são produzidas tem, naturalmente, um sentido materialista-histórico. Além disso, é extremamente importante para a psicologia. Isto precisa ser enfatizado, pois, às vezes, especialmente para a psicologia, a abordagem do problema é apenas considerada em explicações que se originam das necessidades em si, mais precisamente nas experiências emocionais que as necessidades evocam, que parecem explicar por que o homem estabelece objetivos para si mesmo e cria novos objetos. Certamente, isto contém alguma verdade, e seria possível concordar com tudo, se não fosse por uma condição: ao final das contas, como determinantes da atividade concreta, as necessidades só podem aparecer em seu conteúdo objetivo, e este conteúdo não é diretamente incorporado nelas e, conseqüentemente, não pode ser isolado delas.

Uma outra dificuldade básica surge como resultado de uma aceitação parcial da natureza sócio-histórica das necessidades humanas, o que se manifesta no fato de que algumas necessidades são consideradas sociais em suas origens, enquanto outras são tidas como puramente biológicas e comuns aos seres humanos e aos animais. De fato, não é necessária nenhuma proeza de raciocínio para nos darmos conta dos pontos em comum entre certas necessidades humanas e animais. Afinal, o ser humano, assim como os animais, tem um estômago e sente fome - uma necessidade que ele precisa satisfazer para poder sobreviver. Mas o ser humano tem, também, outras necessidades, que não são determinadas biologicamente e, sim, socialmente. São "funcionalmente automáticas" ou "anastáticas". Assim, a esfera das necessidades humanas parece estar dividida em duas partes. Isto surge como resultado inevitável da consideração das "necessidades em si", isoladas das condições objetivas e dos meios de sua satisfação, e, conseqüentemente, isoladas da atividade na qual ocorre sua transformação. Porém, a transformação das necessidades no nível humano também envolve (e sobretudo) as necessidades que parecem ser, no homem, homólogas às necessidades animais. "Fome, Marx observa, é fome, porém a fome que é saciada através de alimento cozido comido com garfo e faca é diferente daquela fome na qual a carne crua é comida com as mãos, as unhas e os dentes."

Naturalmente, o pensamento positivista não vê neste fato nada mais que uma diferença superficial. Seja como for, um homem esfomeado parece ser um exemplo suficiente para mostrar a "profunda" semelhança entre a necessidade de alimento no homem e no animal. No entanto, isso não passa de um sofisma. Para um homem que passa fome, a comida na realidade deixa de existir na sua forma humana e, conseqüentemente, a necessidade de comida passa a ser "desumanizada"; porém, se isto prova alguma coisa, então é apenas que o homem pode ser reduzido, pela fome, a uma condição animal, e não diz exatamente nada sobre a natureza de suas necessidades humanas.

Embora as necessidades humanas cuja satisfação constitui uma condição necessária para manter a existência física difiram das necessidades humanas que não têm homólogos nos animais, este desenvolvimento não se dá de forma absoluta, e a transformação histórica envolve toda a esfera de necessidades.

Além da transformação e enriquecimento do conteúdo objetivo das necessidades humanas, também ocorre mudança na forma de seu reflexo psíquico. Como conseqüência, elas podem vir a adquirir um caráter ideacional e, devido a isso, tornam-se psicologicamente invariantes: desta forma, a comida continua sendo comida para a pessoa faminta, assim como para quem não está nessa condição. Além disso, o desenvolvimento da produção mental gera certas necessidades que só podem existir na presença de um "plano de consciência". Finalmente, forma-se um tipo especial de necessidades - necessidades que são objetivo-funcionais, como a necessidade de trabalho, de criação artística etc. O fator principal é que, no homem, as necessidades entram em novas relações recíprocas.

Embora a satisfação de necessidades vitais continue sendo uma questão "de primeira ordem" para o homem e uma condição inegável de sua vida, necessidades superiores, especificamente humanas, não constituem, absolutamente, apenas formações superficiais assentadas sobre essas necessidades vitais. Por essa razão, pode acontecer que, se pusermos em um dos pratos da balança as necessidades vitais humanas fundamentais e, no outro, suas necessidades superiores, então suas necessidades superiores podem muito bem pesar mais que as necessidades vitais. Isto já é bem conhecido e não precisa de evidência.

É fato que o curso geral do desenvolvimento das necessidades humanas começa pela ação humana com vistas a satisfazer suas necessidades vitais elementares; porém, mais tarde isto se modifica, e o ser humano passa a satisfazer suas necessidades vitais para poder agir. Esta é a principal direção do desenvolvimento das necessidades humanas. Entretanto, esta direção não pode ser deduzida diretamente a partir do movimento das próprias necessidades, pois, por trás desse movimento se esconde o desenvolvimento de seu conteúdo objetivo, isto é, os motivos concretos para a atividade humana.

Assim sendo, a análise psicológica das necessidades torna-se, necessariamente, uma análise dos motivos. Para isso, no entanto, é necessário superar o entendimento subjetivo tradicional dos motivos que conduz a uma confusão de fenômenos absolutamente díspares e de níveis completamente diferentes da regulação da atividade. Encontramo-nos, aqui, com uma contradição genuína: não está claro, dizem, que o homem age porque assim o deseja? Mas as experiências subjetivas, as vontades, os desejos etc. não constituem motivos, uma vez que, por si mesmos, não são capazes de gerar a atividade direta e, conseqüentemente, o problema psicológico principal reside em compreender qual é o objeto de dado desejo, vontade ou paixão.

Naturalmente, há muito menos base, ainda, para chamar de motivos para a ação certos fatores como tendências para produzir estereótipos de comportamento, a tendência para concluir uma ação começada etc. No processo de realização da atividade, emergem, naturalmente, uma multidão de "forças dinâmicas". Essas forças, no entanto, podem ser relegadas à categoria de motivos com um fundamento nada mais consistente do que, por exemplo, a inércia do movimento do corpo humano cuja ação se revela de pronto, quando, por exemplo, um homem que está correndo muito rápido dá de encontro com um obstáculo que aparece inesperadamente.

Um lugar especial na teoria dos motivos da atividade pertence às concepções francamente hedonistas, cuja essência reside no fato de que toda a atividade do homem está, de alguma forma, subordinada ao princípio de maximizar as emoções positivas e minimizar as negativas. A partir disso, a conquista da satisfação e da liberdade do sofrimento compreendem os motivos subjacentes que mobilizam o ser humano. Especificamente, na concepção hedonista, assim como no foco de uma lente, são coletadas todas as representações ideologicamente pervertidas a respeito do senso de existência do ser humano e a respeito de sua personalidade. Como acontece com todas as grandes mentiras, essas concepções se baseiam numa verdade que elas falsificaram. Essa verdade consiste no fato de que o ser humano de fato luta para ser feliz. Mas o hedonismo psicológico entra imediatamente em contradição com essa grande verdade, trocando-a pela moeda pequena do "reforço" e do "auto-reforço" dentro do espírito do behaviorismo skinneriano.

A atividade humana não é, de forma alguma, gerada e não é dirigida, como o comportamento de ratos de laboratório, com eletrodos implantados nos "centros de satisfação" no cérebro. Quando os ratos são treinados para ligar a força e estimular esses centros, eles permanecem eternamente nessa atividade. É claro que é possível citar fenômenos semelhantes no ser humano também, como a necessidade de narcóticos ou a hiperbolização do sexo, por exemplo; no entanto, esses fenômenos não dizem absolutamente nada a respeito da natureza real dos motivos, a respeito da confirmação da vida humana. Ao contrário, essas ações arruínam a vida.

Compreendemos que a insustentabilidade das concepções hedonistas da motivação reside, não no fato de que exageram o papel das experiências emocionais na regulação da atividade, mas no fato de que reduzem e pervertem as relações reais. As emoções não estão subordinadas à atividade, mas parecem ser seu resultado e o "mecanismo" do seu movimento.

Na sua época, John Stuat Mill escreveu: "Eu entendi que, para ser feliz, o ser humano deve colocar diante de si algum tipo de objetivo; então, ao lutar por ele, ele vai sentir felicidade sem que se preocupe com isso." Essa é a estratégia "astuta" da felicidade. Segundo ele, essa é a lei psicológica. 

As emoções preenchem as funções de sinais internos, internos no sentido de que não aparecem diretamente como um reflexo psíquico da própria atividade psíquica. A característica especial das emoções reside no fato de que refletem relacionamentos entre os motivos (necessidades) e o sucesso, ou a possibilidade de sucesso, de realizar a ação do sujeito que responde a esses motivos. Não estamos falando, aqui, sobre o reflexo desses relacionamentos, mas sobre um reflexo seu que se dá de forma direta e sensorial, sobre a experiência. Assim, eles aparecem como resultado da atualização de um motivo (necessidade), e antes de uma avaliação racional por parte do sujeito a respeito de sua atividade.  

Não posso me deter, aqui, numa análise das várias hipóteses que, de uma forma ou de outra, expressam a forma com que as emoções dependem de inter-relações entre a "realidade objetiva e aquilo que deve ser". Vou apenas notar que o fato a ser considerado em primeiro lugar é que as emoções dizem respeito à atividade, e não às ações ou operações que a realizam. Por esta razão, o mesmo processo que realiza várias atividades pode adquirir várias colorações emocionais, até mesmo contraditórias. Em outras palavras, o papel de "sanção" positiva ou negativa é desempenhado pelas emoções com relação aos afetos atribuídos aos motivos. Mesmo a realização bem sucedida de uma ação ou outra não leva necessariamente a emoções positivas; pode engendrar uma experiência fortemente negativa, sinalizando que, no que concerne ao motivo principal, o sucesso obtido é psicologicamente uma derrota para a personalidade. Isto também se revela verdadeiro no nível de reações adaptativas mais simples. O ato de espirrar em si, ou seja, independentemente de qualquer tipo de relação que pudesse existir, evoca satisfação, assim dizem; no entanto, uma sensação inteiramente diferente se dá na experiência de um dos heróis de Chekov, que espirrou no teatro: este fato lhe evocou uma emoção de horror e ele realizou uma série de ações que resultaram em sua morte.

A variedade e a complexidade dos estados emocionais é o resultado da quebra da sensitividade primária na qual os momentos cognitivos e sensitivos se unem. Não devemos, naturalmente, pensar nessa ruptura como se os estados emocionais adquirissem uma existência independente do mundo objetivo. A partir de condições objetivas, eles "marcam" marcas emocionais com relação às coisas em si ou às pessoas, de modo a formar os assim chamados complexos afetivos etc. Aqui estamos falando de outra coisa, especificamente, a respeito da diferenciação que resulta na forma de conteúdo objetivo e de coloração emocional. As condições da mediação complexa da atividade humana e a influência de objetos podem mudar (um encontro inesperado com um urso normalmente causa medo, mas se surgir um motivo especial, por exemplo na situação de caça, o encontro pode gerar alegria). O ponto principal é que os processos e estados emocionais têm seu próprio desenvolvimento no homem, de forma especial. Isto deve ser especialmente enfatizado na medida em que as concepções clássicas das emoções humanas como "rudimentos", com base em Darwin, consideram sua transformação no homem com uma involução, o que gera um ideal falso de educação, conduzindo à exigência de "subordinar os sentimentos à razão fria".

Eles têm sua própria história e seu próprio desenvolvimento. Isto leva a uma mudança de níveis e classes. São afetos que ocorrem súbita e involuntariamente (dizemos: "fiquei tomado pela raiva, mas fiquei contente"); em segundo lugar, as emoções são propriamente esses estados - predominantemente ideacionais e situacionais - e os sentimentos objetivos ligados a eles, isto é, firmes e "cristalizados", de acordo com a expressão figurativa de Stendahl, no objeto da experiência emocional; finalmente, são atitudes - fenômenos subjetivos muito importantes com sua função de "personalidade". Sem aprofundar na análise dessas várias classes de estados emocionais, vou apenas observar que eles travam relações complexas entre si: o jovem Rostov sente medo antes da batalha (e isto é uma emoção) de que será vencido pelo pavor (afeto); uma mãe pode ficar realmente brava com seu filho arteiro sem, nem por um minuto, deixar de amá-lo (sentimento).

A variedade dos fenômenos emocionais e a complexidade de suas inter-relações e fontes são muito bem compreendidas subjetivamente. No entanto, assim que a psicologia deixa o plano da fenomenologia, logo parece que só lhe é permitido investigar os estados mais óbvios. Foi dessa forma que o assunto foi tratado nas teorias periféricas (James disse explicitamente que a sua teoria não dizia respeito às emoções superiores); também é dessa maneira que o assunto tem continuado a ser tratado nas concepções psicofisiológicas contemporâneas. 

Uma outra forma de abordar a emoção envolve a investigação das relações "inter-motivacionais" que, em conjunto, caracterizam a estrutura da personalidade e, simultaneamente, a esfera das experiências emocionais que refletem e mediam seu funcionamento. 

Geneticamente, o ponto de partida para a atividade humana reside na não-coincidência entre motivos e objetivos. Sua coincidência é um fenômeno secundário: seja como resultado da aquisição de um objetivo de força de estimulação independente, seja como resultado do reconhecimento de motivos e de sua conversão em motivos-objetivos. Distintos dos objetivos, os motivos não são, de fato, reconhecidos pelo sujeito: quando executamos uma ação ou outra, naquele momento usualmente não nos damos conta dos motivos que evocam a ação. É certo que não é difícil para nós atribuir motivação a elas, mas a motivação nem sempre contém em si uma indicação de seu motivo verdadeiro. 

Os motivos, no entanto, não estão separados da consciência. Mesmo quando os motivos não são reconhecidos, isto é, quando o ser humano não se dá conta do que o faz realizar uma ação ou outra, eles ainda encontram seu reflexo psíquico, mas de uma forma especial - na forma da coloração emocional da ação. Esta coloração emocional (sua intensidade, sua marca e seu caráter qualitativo) exerce uma função específica, que também requer a distinção entre o conceito de emoção e o conceito de sentido pessoal. Sua não-coincidência não se dá, no entanto, por natureza; evidentemente, nos níveis inferiores, os objetos da necessidade são exata e diretamente "marcados" pela emoção. A não-conformidade só aparece como resultado da quebra da função dos motivos que ocorre no curso do desenvolvimento da atividade humana.

Essa quebra é resultado do fato de que a atividade necessariamente se torna multi-motivacional, isto é, responde, simultaneamente, a dois ou mais motivos. Afinal, as ações humanas praticamente sempre realizam um certo conjunto de relações: voltadas à sociedade e voltadas à própria pessoa. Assim, a atividade do trabalho é socialmente motivada, mas também é dirigida a motivos, como, digamos, a recompensa material. Embora coexistam, é como se esses dois motivos ocupassem planos diferentes. Nas condições das relações socialistas, o senso de trabalho é engendrado para o trabalhador por motivos sociais; no que concerne à recompensa material, este motivo, naturalmente, também existe para ele, porém somente como uma função da atividade estimuladora, embora também a induza, tornando-a "dinâmica", mas a recompensa material, enquanto motivo, passa a se privar de sua principal função, a função da formação de sentido.

Desta forma, certos motivos que induzem a atividade também lhe dão sentido pessoal; vamos chamá-los de motivos formadores de sentido. Outros que coexistem com eles e exercem o papel de fatores de estimulação (positiva ou negativa), às vezes fortemente emocionais e afetivos, não têm a função da formação de sentido; chamaremos esses motivos literalmente de motivos-estímulos. Caracteristicamente, quando uma atividade, importante em seu próprio sentido pessoal para o homem, encontra, no curso de sua realização, um estímulo negativo que elicia, até mesmo, uma experiência emocional forte, então seu sentido pessoal não se altera por causa disso; muito freqüentemente, uma outra coisa acontece: especificamente, ocorre, de forma única, um rápido descrédito da emoção eliciada. Este fenômeno bem conhecido leva-nos a pensar, mais uma vez, no problema das relações entre as experiências emocionais e o sentido pessoal.

Uma separação com respeito à função da formação de sentido e à estimulação simples entre os motivos de uma só atividade torna possível entender as principais relações que caracterizam a esfera motivacional: as relações de hierarquia dos motivos. Esta hierarquia não é minimamente construída dentro de uma escala que estivesse de acordo com sua proximidade com relação às necessidades vitais (biológicas), da forma com que Maslow, por exemplo, imagina: a necessidade de manter homeostase fisiológica é a base para a hierarquia; os motivos de auto-preservação são superiores; em seguida, confiança e prestígio; finalmente, no alto da hierarquia, os motivos de conhecimento e estética. O problema principal que surge aqui não reside em estabelecer até que ponto a escala dada (ou outra semelhante a ela) está certa, mas em que medida o princípio que rege essa escala é adequado. O fato é que nem o grau de proximidade com relação às necessidades biológicas, nem o grau de capacidade de estimulação, nem a influência de um motivo ou outro determina a relação hierárquica entre eles. Essas relações são determinadas pelas conexões que a atividade do sujeito provoca, por suas mediações e, por essa razão, são relativas. Isso diz respeito, também, à correlação principal - à correlação entre os motivos formadores de sentido e os motivos-estímulos. Na estrutura de uma atividade, dado motivo pode preencher a função de formação de sentido; numa outra, a função de estimulação suplementar. Os motivos formadores de sentido, no entanto, sempre ocupam uma posição hierárquica superior, mesmo quando não governam a afecto-gênese direta. Parecendo ser dominantes na vida da personalidade, para o próprio sujeito podem permanecer "nas asas", com respeito, tanto à consciência, quanto à afetividade direta.

O fato da existência de motivos realmente inconscientes não expressa, em si, um início especial escondido nas profundezas da psique. Os motivos inconscientes têm a mesma determinação que todo reflexo psíquico: uma existência real, a atividade do homem dentro de um mundo objetivo. Inconsciente e consciente não se opõem; são apenas formas e níveis diferentes de reflexo psíquico em estrita relação com o lugar que aquele que é refletido ocupa na estrutura da atividade, no movimento de seu sistema. Se os objetivos e ações que respondem a eles são por necessidade reconhecidos, o assunto é outro no que diz respeito ao reconhecimento de seus motivos, daquilo a que se deve a seleção e realização de determinados objetivos. O conteúdo objetivo dos motivos sempre, é claro, de uma forma ou de outra, se apresenta e é percebido. No que diz respeito a isso, o objeto que estimula a ação e o objeto que age como implemento ou obstáculo são, por assim dizer, equivalentes. Se o objeto é reconhecido como motivo, já é um assunto diferente. O paradoxo reside no fato de que os motivos são revelados à consciência só objetivamente, por meio da análise da atividade e de sua dinâmica. Subjetivamente, eles só aparecem em sua expressão oblíqua, na forma da experiência de vontades, de desejos, ou na luta por um objetivo. Quando um ou outro objetivo aparece na minha frente, então eu não somente o reconheço, apresento sua condicionalidade objetiva para a minha pessoa, os meios de sua realização e os resultados eventuais aos quais ele conduz, mas eu quero alcançá-lo (ou, ao contrário, pode me causar aversão). Essas experiências diretas preenchem o papel de sinais internos por meio dos quais os processos são regulados no curso de sua realização. Expressando-se subjetivamente nesses sinais internos, o motivo não está diretamente contido neles. Isso cria a impressão de que surgem endogenamente e de que são as forças que mobilizam o comportamento.

O reconhecimento dos motivos é um fenômeno secundário que surge apenas no nível da personalidade e é continuamente produzido no curso de seu desenvolvimento. Para as crianças muito pequenas, este problema simplesmente não existe. Mesmo no estágio de transição para a idade escolar, quando um desejo de ir para a escola aparece na criança, o motivo subjacente, o qual está por trás desse desejo, não é claro para ela, embora não tenha dificuldade com motivações que usualmente produzem algo de familiar para ela. Só é possível explicar esse motivo subjacente estudando objetivamente (obliquamente), por exemplo, os jogos das crianças que brincam de "ir para a escola", de modo que, no jogo de faz-de-conta, é fácil de se ver o sentido pessoal das ações do jogo e, correspondentemente, seu motivo. Para reconhecer os motivos reais de sua atividade, o sujeito também precisa proceder de forma indireta, com esta diferença, entretanto, de que ao longo desse caminho ele será orientado por sinais - experiências, "marcas" emocionais da vida.

Um dia preenchido com uma multidão de ações, aparentemente totalmente bem sucedidas, pode, apesar disso, estragar o humor de uma pessoa, deixando-a com uma espécie de resíduo emocional desagradável. Por trás das preocupações do dia, esse resíduo quase não é percebido. Mas, então, chega um minuto no qual a pessoa olha para trás e mentalmente avalia o dia que passou; nesse momento, vem à sua memória uma dada experiência, e seu humor adquire a referência objetiva: surge um sinal afetivo, que indica que particularmente essa experiência a deixou com o resíduo emocional. Pode acontecer, por exemplo, que seja sua reação negativa ao sucesso de alguém que alcançou um objetivo comum simplesmente porque parecia para ela que aquilo lhe pertencia; e, aqui, parece que não foi exatamente assim, e que, realmente, o principal motivo para ela era alcançar o sucesso para si. Ela confronta-se com um "problema de sentido pessoal" que não se resolve por si, porque agora se tornou um problema da correlação dos motivos que a caracterizam como uma personalidade.

É necessário um trabalho interno específico para resolver um problema como esse e talvez para erradicar o que se tornou exposto. Afinal, é muito ruim, conforme Pirogov, se você não percebe isso a tempo e não dá fim a isso. Herzen também escreveu a esse respeito, e toda a vida de Tolstoi é um grande exemplo de um trabalho interno desse tipo.

O processo de penetrar na personalidade aparece, aqui, do ponto de vista do sujeito, fenomenicamente. Mas, mesmo neste caso, em sua aparência fenomênica, fica claro que consiste num esclarecimento das relações hierárquicas dos motivos. Subjetivamente, parecem expressar uma "valência" psicológica que pertence aos próprios motivos. A análise científica, no entanto, precisa ir além, uma vez que a formação dessas relações necessariamente pressupõe uma transformação dos próprios motivos, a qual ocorre no movimento deste sistema inteiro de atividade do sujeito no qual sua personalidade é formada.

Actividade Consciência e Personalidade (1978)

Fonte: The Marxists Internet Archive

Tradução para o português: Maria Silvia Cintra Martins