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Eunivers

Psicologia

 

Miscelânea do psicólogo

Paulo Rogério da Motta

 

O mundo PSI do Euniverso


 


O USO DIÁRIO DA INTERNET NA INFÂNCIA:

influência no desenvolvimento social e cognitivo da criança

 

Pesquisa realizada por quatro pesquisadores em livros e artigos científicos para fundamentação de que o uso diário da internet por parte das crianças é um fator de influência em seu desenvolvimento social e cognitivo e que a internet é uma ferramenta de inestimável valor no tempo atual, porém o uso excessivo e sem regras pode fazer dela algo nocivo, e que apesar do seu valor a internet não substitui a necessidade do “brincar”  e do lúdico da criança.

Importante esclarecer que o maior objetivo deste trabalho é mostrar como o acesso à internet feito inadequadamente pode causar a criança dificuldades de desenvolvimento e socialização e não o de fazermos criticas à ferramenta moderna de obtenção de conhecimento e informação.

É claro que compreendemos que com o avanço da tecnologia e o aumento de conhecimento sobre nós mesmos e todo o universo, se fazem necessários meios que tragam até nós informações e conhecimento de forma dinâmica, intensa e de acordo com a velocidade dos acontecimentos que ocorrem no dia-a-dia. E que tais ferramentas já até fazem parte de métodos didáticos em escolas e instituições de aprendizado, principalmente as direcionadas às crianças. Por isso abordamos em nosso trabalho de pesquisa a preocupação que se deve ter com relação ao acesso abusivo e inadequado à internet, pois compreendemos que esta é uma ferramenta de informação que tanto pode ser benéfica (ex.: conhecimento e informação) quanto pode ser maléfica (ex.: sexualidade e violência).

 No decorrer do desenvolvimento de nosso trabalho de pesquisa científica mostraremos a importância que pais, professores, educadores de forma geral, ou seja, os responsáveis pela educação infantil, devem dar e se preocuparem com a influência que pode ter sobre a criança que tem acesso ilimitado à internet e o quanto se faz necessário o acompanhamento junto às crianças, para que haja um acesso mais adequado e com limites.

Elucidaremos que para uma infância saudável é necessário aprender, mas também brincar, não só em jogos cibernéticos ou videogames onde vence aquele que bate mais, ou ganha o concurso àquela que escolhe a roupa mais bonita do personagem. Elucidar que para um bom desenvolvimento tanto psicomotor quanto cognitivo de uma criança ela precisa também brincar com jogos lúdicos, tanto no ato de “contar estórias” quanto nas brincadeiras onde elas consigam interagir ativamente e de forma mais real com outras crianças, como brincadeiras de “pega-pega”, “esconde-esconde”, etc. para um desenvolvimento mais saudável dentro de um contexto social.

Por isso, o estudo desenvolvido neste trabalho traz a importância de impor limites à criança e como os educadores devem estar sempre atentos ao que as crianças estão expostas na internet, procurando sempre estimular um bom uso e que quando bem administrado pode fazer com que a criança tenha uma boa qualidade de vida e obtenha um melhor aprendizado.

Esta pesquisa foi desenvolvida a fim de mostrar o que o uso cotidiano das crianças do século XXI da Internet pode causar à sua sociabilidade e cognição e que esta influência pode provocar distúrbios tanto no seu comportamento quanto no seu aprendizado, e como a evolução da humanidade e da tecnologia pode proporcionar à criança uma exposição indevida de informações e também como todo esse avanço modificou até mesmo o brincar da criança.

 REFERENCIAL TEÓRICO

A criança no século XXI

As crianças de hoje já não empinam pipa, brincam de carrinho e nem mesmo brincam com brincadeiras onde há uma interação mais dinâmica com outras crianças como “esconde-esconde”, “pega-pega” e outras.

Hoje as brincadeiras infantis são games de luta, onde personagens batem uns nos outro até a morte ou de matar bichinhos até encontrar “o mundo encantado”.

Associado a esse novo modo de viver a infância surge a internet como uma rede de comunicação que possibilita à criança o acesso à esse novo modo de viver a infância, além de colocar ao alcance de “cliques” o acesso a todo tipo de informação e possibilitar a inter-relação com qualquer pessoa também conectada à internet. O objetivo principal dessa dissertação é mostrar o quanto como tudo isso em excesso pode vir a causar distúrbios no desenvolvimento infantil.

Com o avanço da tecnologia aonde a informação chega até nós de forma intensa e dinâmica, grande parte da sociedade, inclusive as crianças, tem acesso livre à internet, principalmente as de classe média e alta, onde o brincar para muitas delas não envolve mais o lúdico. Isso faz com que reflitamos e analisemos todo um contexto a que as crianças estão submetidas, pois se analisarmos profundamente a internet em si, ela não trás tanto mal ao desenvolvimento da criança, mas o uso abusivo, ou ainda, “o mau uso” proporciona à criança uma alienação do meio em que vive.

Segundo PACHECO:

     “As crianças são onipotentes no mundo da fantasia. Brincadeira é coisa séria, sem que para isso elas tenham consciência da dimensão do que isto representa para o desenvolvimento global delas. Nós os adultos, é que nos prestamos ao trabalho de entender este processo”.

       No acesso à internet crianças estão expostas a todo tipo de informação e jogos, onde muitos deles são violentos e a criança muito envolvida não distingue o mundo da fantasia do mundo real. E assim, em muitos casos, a criança não consegue desenvolver relações com outras crianças ou até não conseguem interagir com o meio onde vive.

Ainda citando PACHECO:

       “Hoje, a cibercultura espanta a todos, para o bem ou para o mal que cada um possa atribuir a esta realidade, por que ela está fortemente presente no cotidiano de todos e potencializando tudo aquilo que diz respeito às habilidades humanas.”

  Não se pode julgar a internet como ferramenta deturpadora do aprendizado, pois proporciona ao usuário, seja ele adulto ou criança, infinitas informações válidas. Na internet é possível ter acesso a enciclopédias, biografias, fatos históricos, etc. E é por isso que se faz necessário uma reflexão, onde o que realmente está afetando muitas vezes desfavoravelmente o desenvolvimento de uma criança; se é a internet ou a ausência de limites em seu uso?

Reflexão necessária, pois uma criança que no seu cotidiano passa horas diante de um computador com jogos violentos e fantasiosos, acesso irrestrito a todo tipo de informações e inter-relações, ou seja, se envolvendo intensamente com o que lhe é apresentado sem restrições podem ser fatores para distúrbios em seu comportamento.

Segundo FACCI:

   Já Elkonin e Leontiev afirmam:“Que cada estágio de desenvolvimento da criança é caracterizado por uma relação determinada, por uma atividade principal que desempenha a função de principal forma de relacionamento da criança com a realidade. Para esses estudiosos, o homem — a partir do desenvolvimento de suas atividades, tal como elas se formam nas condições concretas dadas de sua vida — adapta-se à natureza, modifica-a, cria objetos e meios de produção desses objetos, para suprir suas necessidades. A criança, nesse caso, por meio dessas atividades principais, relaciona-se com o mundo, e, em cada estágio, formam-se nela necessidades específicas em termos psíquicos. Leontiev (1987) enfatiza que o desenvolvimento dessa atividade condiciona as mudanças mais importantes nos processos psíquicos da criança e nas particularidades psicológicas da sua personalidade”.

  Sendo a internet essa atividade principal cabe-nos analisar esse contexto e cientes de que para um bom desenvolvimento cognitivo, social e também psicomotor infantil o brincar é a peça chave. Tem de ser feita uma análise global dos fatos, onde não são os jogos ou a internet que fazem com que a criança se torne alienada. E ainda podemos compreender nesse contexto o quanto que a internet em uso abusivo, principalmente por parte das crianças, afeta seu desenvolvimento cognitivo e social. As crianças de hoje já não querem brincar com pipas, carrinhos ou com brincadeiras que interajam ativamente com outras crianças e passaram a se fixar em jogos fantasiosos e tendo contato dinâmico com informações e inter-relações virtuais que sua maturidade não consegue difundir.

Segundo MOURÃO:

     Voltando, pois, à noção de "cultura infantil subversiva", pode-se dizer que ela refere-se basicamente ao fato de as crianças na atualidade estarem tão intensamente expostas à mídia e a internet que, ao receberem uma quantidade enorme de informações, muitas vezes acabam por deter mais conhecimento, ainda que superficial e desorganizado, que os próprios adultos, subvertendo, assim, a lógica do passado que sustentava a autoridade dos mais velhos sobre os jovens. Mais ainda, às crianças do passado eram vedadas informações a respeito de determinados temas – como, por exemplo, sexualidade e crime – tornados rotineiros para a infância atual.

  Sabemos que no mundo moderno em que vivemos hoje é importante que estejamos sempre bem informados, inclusive as crianças. Mas a atual preocupação é de que forma essas informações estão sendo expostas, pois as crianças no desenvolvimento de sua personalidade e maturidade, ainda não possuem um bom discernimento, principalmente quando tudo lhes chega de forma tão intensa, e tal fato poderá causar a elas uma grande dificuldade de desenvolvimento.

É assim que hoje vivem muitas crianças: alienadas com o choque de informação que lhe é exposta, onde não conseguem absorve de forma saudável, causando-lhe uma alienação e distúrbios em seu comportamento.

BELLONI em seu artigo “Infância, máquinas e violência” vai mais longe afirmando que a internet e a mídia como um todo podem trazer grandes transtornos a uma criança quando informações e comportamentos são simplesmente jogados sem pudor algum, ou até mesmo respeito com quem possa a vir ter acesso. BELLONI diz:

     “Em primeiro lugar, a violência generalizada nas mensagens difundidas pelas mídias - nas quais se tornou a proposta estética prevalente, inclusive no aspecto visual e corporal, como o pearcing, por exemplo - contribui para a criação e consolidação de uma cultura jovem mundializada, cujas características mais marcantes podemos assim resumir: consumismo, narcisismo, banalização da violência como imagem do mundo urbano contemporâneo, legitimação do uso de meios violentos como forma de resolver conflitos, tudo isto levando à dessensibilização dos jovens com relação a cenas de violência física e psíquica e sua conseqüência, o sofrimento do outro (contrariando assim uma das ilusões de Rousseau, que acreditava que a compaixão, o que hoje chamaríamos de solidariedade, fosse um dos elementos constituidores da natureza humana)”.(...) O discurso das mídias sobre a cibercultura, a adesão dos jovens e a apropriação que eles fazem desta cultura mundializada, reinterpretada e incorporada a partir das leituras locais, vãs criando um "fosso ético" entre as gerações, que tem a ver com as representações e as identidades que vão se constituindo em torno de dois temas essenciais: violência e sexualidade, não por acaso, justamente, temas ligados aos dois instintos básicos apontados por Freud.

Ressalvando que a internet é atualmente uns dos meios dinâmicos e interessantes de conhecimento, pois é através da mídia, e principalmente a internet, que estamos conectados com o mundo. Esta ferramenta de grande conhecimento já está sendo inclusive utilizada como método didático em escolas e instituições. O uso inescrupuloso da internet é que faz da criança um objeto “manipulado” por esta ferramenta e não é o conhecimento ou o acesso, mas sim a falta de controle e manuseio inadequado que são fatores de risco, ou seja, todas as conseqüências ruins do conteúdo e uso da internet decorrem exclusivamente do mau uso e não da sua existência.

 

Necessidades da criança para o seu desenvolvimento

Há que se ater ainda que a criança possui necessidades e passa por processos em seus estágios de desenvolvimento e que a não vivência de situações de aprendizado que atendam a estas necessidades peculiares do seu estágio de desenvolvimento, em razão da sua atividade principal ser a internet, acarretam um “não-aprendizado” ou uma “aprendizagem errada” culminando num desvio do processo natural de seu desenvolvimento. Para elucidar tal afirmativa focaremos a situação da criança em estágio pré-escolar, visto a internet ter opções para a criança que ainda sequer foi alfabetizada. Citando FACCI:

Na seqüência, no período pré-escolar, a atividade principal passa a ser o jogo ou a brincadeira. Utilizando-se dessas atividades, a criança apossa-se do mundo concreto dos objetos humanos, por meio da reprodução das ações realizadas pelos adultos com esses objetos. As brincadeiras das crianças não são instintivas e o que determina seu conteúdo é a percepção que a criança tem do mundo dos objetos humanos.

 Aqui aparecem dois pontos preocupantes: a internet determinar um conteúdo puramente virtual para a percepção da criança de um mundo concreto; e ela participar de um meio social virtual caracterizado pela participação dos mais variados tipos de pessoas oferecendo os mais variados tipos de sites e muitos totalmente inadequados para que a criança faça deles os seus modelos. Seguindo com FACCI:

A criança opera com os objetos que são utilizados pelos adultos e, dessa forma, toma consciência deles e das ações humanas realizadas com eles. A criança, durante o desenvolvimento dessa consciência do mundo objetivo, por meio da brincadeira "(...) tenta integrar uma relação ativa não apenas com as coisas diretamente acessíveis a ela, mas também com o mundo mais amplo, isto é, ela se esforça para agir como um adulto" (Leontiev, 1998b, p. 121). Ela ainda não dominou e não pode dominar as operações exigidas pelas condições objetivas reais da ação dada, como, por exemplo, dirigir um carro, andar de motocicleta, pilotar um avião. Mas, na brincadeira, na atividade lúdica, ela pode realizar essa ação e resolve a contradição entre a necessidade de agir, por um lado, e a impossibilidade de executar as operações exigidas pela ação, de outro.

 Diante da explanação de FACCI vemos o quanto pode ser desfavorável a criança substituir a experiência real pela experiência virtual e o quanto pode ser perigoso para o seu desenvolvimento neste estágio o contato inter-relacional da internet, pois qualquer adulto, preparado e íntegro ou não, pode oferecer na rede um modelo para o aprendizado da criança. A criança nesta fase reproduzirá a ação do adulto, mesmo sendo ele uma pessoa qualquer conectada na rede. E mesmo os pais exercendo seu papel de maneira favorável ao desenvolvimento da criança, ainda assim ela estará sujeita à influência de terceiros conforme FACCI:

No período pré-escolar, o que se constata é que as necessidades básicas da criança são supridas pelos adultos, e as crianças sentem sua dependência com relação a eles. O seu mundo divide-se em dois círculos: um criado pelos pais ou pelas pessoas que convivem com elas, sendo que essas relações determinam as relações com todas as demais pessoas; o outro grupo é formado pelos demais membros da sociedade.

 A internet é uma expressão da sociedade e nela está presente toda a variedade de pessoas que compõem a sociedade, e na rede o acesso é livre e indiscriminado. Neste contexto as necessidades básicas da criança são supridas por adultos que fogem à seleção dos pais e educadores. Além da falta da seleção citada a criança fica sujeita à manipulação das tendências da atualidade, sejam elas benéficas ou não. Citando BELLONI:

"Fosso ético", ou incomunicação, que acompanha um "afastamento técnico" entre as gerações (do qual a relação com o computador é o exemplo mais flagrante), mas também entre regiões do planeta e grupos sociais, estes "linkados" entre si segundo categorias de mercado, por meio de modelos e imagens constitutivos da cultura jovem mundializada, nesta situação de globalização excludente.

 A criança “linkada”, principalmente quando alfabetizada, fica sujeita à influência de grupos, modelos e culturas e sem o filtro daqueles que têm o papel de serem seus educadores. Mas a internet tem realmente esse poder de persuasão e influência sobre quem tem contato com ela? Para este questionamento citamos NICOLACI-DA-COSTA abordando primeiramente a influência de novas tecnologias no desenvolvimento humano:

            Não parece haver dúvidas de que nossos comportamentos e hábitos podem sofrer alterações em função do desenvolvimento de novas tecnologias. O difícil é perceber que algumas tecnologias têm impactos bem mais profundos sobre os seres humanos que a ela são expostos, chegando mesmo, embora em raros casos, a gerar transformações internas radicais. Em outras palavras, embora seja fácil detectar que novas tecnologias têm o poder de alterar nossos hábitos e nossas formas de agir, é bem mais difícil registrar que algumas tecnologias também podem alterar radicalmente nossos modos de ser (como pensamos, como percebemos e organizamos o mundo externo e interno, como nos relacionamos com os outros e com nós mesmos, como sentimos, etc.).

 Partindo do ponto de que uma nova tecnologia pode alterar radicalmente nossos modos de ser, de como pensamos, percebemos e organizamos o mundo externo e interno, nos relacionamos e sentimos, podemos perceber que a internet tem grande poder por justamente ser um meio que permite ao homem aprender e a se relacionar, ou seja, a internet baseia-se na cognição e na socialização do ser humano. Dos três domínios predominantes do desenvolvimento humano a internet exerce forte influência sobre dois: o cognitivo e o psicossocial, assim definidos por BERGER:

O domínio cognitivo inclui os processos do pensamento, as aptidões de percepção e o domínio da linguagem, além das instituições de ensino que os estimulam. O domínio psicossocial inclui as emoções, a personalidade e as relações interpessoais com os membros da família, com os amigos e com a comunidade.

 

Internet: ferramenta didática e sistema do caos

E como é constituído esse ciberespaço ilimitado de informações e profuso de relações? Citando NICOLACI-DA-COSTA:

 Um de seus principais analistas, Pierre Lévy (1996, 1999), adota o nome que lhe foi dado pelo romancista norte-americano William Gibson: ciberespaço. Define-o como a corporificação do caos, a essência da cibercultura. Diz: O ciberespaço está organizado com um sistema de sistemas mas, mesmo assim, é também um sistema do caos. Corporificação máxima da transparência técnica, (...) ele desenha e redesenha a aparência de um labirinto móvel (...) Essa universalidade destituída de significado central, esse sistema da desordem, essa transparência labiríntica, que eu chamo de 'Universal sem totalidade', constitui a essência paradoxal da cibercultura. (1999, p. 192, minha tradução)

 O ciberespaço onde a criança passa horas “navegando” é este labirinto caótico que lhe passa “gigabytes” de informações, onde ela “faz amizades” e onde se endocultura. O desenvolvimento da criança acontece a cada fato vivido, pensamento, percepção, sensação e emoção, ou seja, se dá a cada atividade em que ela está inserida, inclusive as atividades vividas na frente de um computador. Segundo MAHONEY de acordo com Henri Wallon:

O motor, o afetivo, o cognitivo, a pessoa, embora cada um desses aspectos tenha identidade estrutural e funcional diferenciada, estão tão integrados que cada um é parte constitutiva dos outros. Sua separação se faz necessária apenas para a descrição do processo. Uma das conseqüências dessa interpretação é de que qualquer atividade humana sempre interfere em todos eles. Qualquer atividade motora tem ressonâncias afetivas e cognitivas; toda disposição afetiva tem ressonâncias motoras e cognitivas; toda operação mental tem ressonâncias afetivas e motoras. E todas elas têm um impacto no quarto conjunto: a pessoa, que, ao mesmo tempo em que garante essa integração, é resultado dela.

 Encarando o desenvolvimento da criança como uma “totalidade”, vemos ser contra a natureza do seu desenvolvimento ser tratada de forma fragmentária e assim, colocar as inúmeras horas que uma criança passa conectada à internet como um fator desvinculado do seu desenvolvimento é impossível. Também diante desta integração dos conjuntos que fazem uma pessoa – motor, afetivo e cognitivo – vemos que a pessoa emerge numa totalidade a partir da interação do individual e do social. Ainda citando MAHONEY baseada em Wallon:

A existência social e a existência individual estão em um vir-a-ser contínuo, isto é, em um processo de transformações constantes, marcadas pela situação histórica concreta em que acontecem.

A concepção de desenvolvimento é de um desenvolvimento em aberto, em processo, sempre a caminho de sua formação e nunca acabado, fechado. Está sempre em movimento, o que não elimina regressões, crises ou conflitos.

Há crises na passagem de um estágio a outro, geradas pelo encontro das atividades já adquiridas com novas solicitações do meio. Estabelece-se um conflito, uma negação das atividades anteriores, que será a mola para a passagem a um novo estágio.

 E quando a criança está conectada na rede ela está fazendo esta interação individual-social e assim participando de um processo de transformação constante e vivendo neste processo crises e conflitos e estabelecendo no seu processo de desenvolvimento a internet como uma das forças a impulsionar a mola para a passagem de um estágio a outro.

A criança quando coloca a internet, ou mesmo atividades executadas num contato isolado de tecnologia e criança, isola-se numa realidade virtual, isto é, deixa de vivenciar a experiência na realidade. O mundo virtual é cativante para os adultos e também o é para a criança por sua similaridade com o imaginário, e a criança ver-se cativada ou “viciada” na internet é fato corriqueiro. Citando novamente NICOLACI-DA-COSTA:

Já, Christian Crumlish, autor do Dicionário da Internet (1997), o define como o espaço no qual é compartilhada a realidade imaginária criada pelas redes de computadores.

É justamente essa característica de ser um lugar imaginário, no qual é compartilhada uma realidade também imaginária, que atrai a atenção daqueles que estão interessados em entender as conseqüências humanas da Revolução da Internet. Isso porque é surpreendente o poder que esse novo espaço e essa nova realidade têm de cativar e prender seus freqüentadores.

Turkle (1995) mostra como é possível viver nesse espaço e nessa realidade. Nicolaci-da-Costa (1998), Romão-Dias (2001) e Costa (2001) também deixam claro que o ciberespaço é o lugar (embora desprovido de materialidade física) no qual se experimentam novas formas de vida a partir das telas dos computadores que lhes servem de plataforma e via de acesso. Enquanto isso, Young (1998) alega que as experiências nele vividas são tão atraentes e tão reais e intensas que podem levar ao vício.

 

Criança: brincar é preciso

Essa particularidade da internet de realidade imaginária vem a ser uma isca e ao mesmo tempo uma armadilha para as crianças que possuem uma divisão tênue entre realidade e imaginação. A visão de Vygotsky sobre isso é esclarecedora e assim citamos JOBIM E SOUZA:

Para melhor compreendermos o papel da imaginação na constituição da realidade, encontramos em Vygotsky um caminho que nos leva a observar a relação da criança e seus jogos. Na experiência da criança não há limites rígidos entre imaginação e realidade; a forma peculiar com que a criança é capaz de lidar com o mundo objetivo nos permite uma compreensão mais profunda dos mecanismos da atividade criadora do homem.

Na infância, a imaginação, a fantasia, o brinquedo não são atividades que podem se caracterizar apenas pelo prazer que proporcionam. Para a criança, o brinquedo preenche uma necessidade; portanto a imaginação e a atividade criadora são para ela, efetivamente, constituidoras de regras de convívio com a realidade. Mas se em seus jogos as crianças reproduzem muito daquilo que experimentam da vida diária, as atividades infantis não se esgotam na mera reprodução. Isso porque as crianças não se limitam apenas a recordar e reviver experiências passadas quando brincam, mas as reelaboram criativamente, combinando-as entre si e edificando com elas novas possibilidades de interpretação e representação do real, de acordo com suas afeições, suas necessidades, seus desejos e suas paixões. A criança, ao inventar uma história, retira os elementos de sua fabulação de experiências reais vividas anteriormente, mas a combinação desses elementos constitui algo novo. A novidade pertence à criança sem que seja mera repetição de coisas vistas ou ouvidas. Essa faculdade de compor e combinar o antigo com o novo, tão facilmente observada nas brincadeiras infantis, é a base da atividade criadora humana.

 Aqui vemos o fascínio que a internet pode causar por essa similaridade com o mundo imaginário e percebemos também a importância do “brincar” para a criança. O “brincar” para a criança vai além do prazer: é uma necessidade para a sua obtenção da realidade. Mais do que virtuais, as crianças necessitam de experiências reais para a elaboração da sua realidade e desenvolvimento da sua atividade criadora. A criança ao fazer do computador e do acesso à internet o seu campo de obtenção de experiências vai coibir a sua atividade natural de desenvolvimento ao impedir que sua realidade seja elaborada através de experiências reais e assim aliená-la por não ter uma realidade concebida, além do prejuízo da inexistência também de uma “socialização real”, e não apenas virtual.

Reconhecendo a internet como um agente capaz de alterar comportamentos há que se voltar a atenção para as crianças que têm diante de si todo um processo de formação e desenvolvimento.

O uso freqüente da internet coloca a criança frente a uma fonte de modelos, referências e descobertas. Será a internet com sua realidade imaginária adequada a fornecer subsídios para o imaginário infantil? A internet ou qualquer aparelho virtual tem condições de “brincar” ou ser um “brinquedo” para a criança? Sobre essas questões cabe citar MEIRA:

As crianças, ao brincar, situam-se na dimensão do sonho, do devaneio, como Freud apontava (FREUD, 1973). Hoje, este sonho encontra-se marcado pelas imagens e palavras que conformam sua vida na promessa da felicidade em um biscoito, do prestígio de uma Barbie, da feminilidade em um salto da Carla Perez, da masculinidade em um Dragon Ball, fazendo com que traços que seriam singularizados pela história familiar e cultural passem a sê-lo pela via das marcas do objeto, artificial e fragmentado. As crianças encontram-se submetidas à vigência hegemônica de uma formação social que anestesia na raiz a possibilidade de diferenciação e distanciamento crítico. [...]Suspender o tempo e brincar é hoje um ato de extremo desafio que as crianças tem de enfrentar frente à avassaladora rede de aparelhos virtuais que invadem sua vida, anestesiando seus movimentos corporais e seu pensamento.[...]

 Sobre a estruturação da realidade na criança citamos LEVIN:

Este “verdadeiro” enodamento do corpo real (como corpo-órgão a ser investido, inscrito ou emoldurado), do corpo no imaginário (terá de constituir-se em imagem do corpo para “re-conhecer-se” e “re-presentar-se”) e do corpo no simbólico (ao “submergir-se e besuntar-se na linguagem) irá configurar o itinerário estruturador da infância que, como tal, possui um limite determinado pelo percurso adolescente.

 A criança precisa do “brincar” para reconhecer-se e para estruturar a realidade à sua volta. A criança ao brincar não apenas apreende a realidade, mas também aprende a dominar seus medos, a deslocar os seus processos intrapsíquicos para o exterior, como por exemplo, a angústia. A atividade lúdica da criança é a ponte entre a fantasia e a realidade e quando a internet passa a ser a “brincadeira” da criança a ponte deixa de existir, pois a criança passa a lidar com a fantasia e o virtual, ausentando-se a realidade.

A criança precisa do “brincar” para através do processo de reinventar a realidade através da brincadeira e da fabulação consiga apreender o mundo em que vive. Sobre essa fabulação necessária à criança vemos nesse “encenar da realidade” ainda mais um fator benéfico: o efeito terapêutico. A criança ao viver suas histórias expressa seu conteúdo psíquico. Sobre o valor terapêutico da história citamos SUNDERLAND:

 Ser humano significa ter alguns sentimentos difíceis ou intensos demais. Alguns desses sentimentos são tão confusos, perturbadores e dolorosos que é difícil administrá-los, quanto mais pensar sobre eles com eles ou trabalhá-los até o fim. Mas, como a comida, esses sentimentos precisam ser bem digeridos. Senão, eles acabam nos assombrando de algum jeito, prejudicando nossos relacionamentos ou interferindo na nossa capacidade de trabalho. Eles podem nos trazer muita infelicidade porque a carga energética de sentimentos muito difíceis ou muito fortes não se vai com facilidade. Ele fica represado dentro de nós e, como toda energia emocional represada, acaba vazando em forma de sintomas neuróticos, sintomas físicos ou comportamento destrutivo.

Esse “represamento” e posterior “vazamento” podem ser ainda mais extremos nas crianças, que não têm estratégias sofisticadas para administrar sentimentos difíceis ou intensos demais. Elas não têm recursos internos para entendê-los plenamente e nem para regular o nível de suas emoções. Temos inúmeros exemplos das dolorosas conseqüências disso: crueldade, comportamento agressivo, dificuldade de aprendizado, enurese noturna, medo de separações, falta de concentração, comportamento incontrolável, hiperatividade, obsessões, fobias, distúrbios do sono, pesadelos, distúrbios alimentares ou estados constantes de medo, ansiedade ou infelicidade. Qualquer uma dessas condições pode se desenvolver, a menos que a criança tenha ajuda para compreender e administrar seus sentimentos mais problemáticos.

 A criança precisa da realidade para viver a sua fantasia e para expressar o conteúdo intrapsíquico e somente a experiência real poderá exercer esse papel. A internet, ferramenta da tecnologia moderna, vem como uma fonte de informações e possibilidades de inter-relações e no dinamismo de nosso tempo é uma fonte de inestimável valor. Colocar a internet como algo nocivo e proibido é abrir mão dessa importante ferramenta. A abordagem do uso da internet pelas crianças, suas conseqüências quando em uso excessivo e as necessidades da criança para seu desenvolvimento foram os propósitos dessa discussão.

 

CONCLUSÕES

A internet atualmente já é utilizada como ferramenta didática e seu uso pode proporcionar inúmeros ganhos no aprendizado infantil, mas tem que haver também o controle do seu uso por parte dos responsáveis pela educação e formação das crianças. Hoje alguns softwares oferecem algumas possibilidades de controle do uso infantil, porém ainda não são eficazes para um controle seguro. Um controle mais eficiente poderia ser buscado com a criação de interfaces dentro dos sistemas operacionais onde o perfil do usuário que estivesse acessando a internet fosse o sensor do conteúdo acessado. Hoje já há um esboço desse procedimento em alguns sistemas operacionais, mas há que se aprimorar. A internet também poderia mudar a sua estrutura permitindo a liberdade e democracia do seu conteúdo, porém o anonimato que ela permite é a máscara que muitos querem para poderem atuar de forma nociva, irresponsável e ilegal. A internet deve perpetuar a sua liberdade, porém que a liberdade seja da informação.

Acompanhar as atividades da criança é papel de quem tem a responsabilidade de sua educação e formação. A chupeta tantas vezes usada no início da infância para que a criança simplesmente “não incomode” não pode ser substituída pela internet. Pais e educadores têm que assumir o papel de controle do uso da internet já que os mecanismos da tecnologia ainda não bastam. Cabe também aos pais e educadores ajudarem a criança a ser criança, pois só assim ela será um adulto saudável em todos os sentidos.

“Brincar” é preciso e viver a realidade também é. Se ambos não acontecerem a apreensão do mundo real, a socialização e o desenvolvimento cognitivo serão comprometidos.

Estar ao lado da criança ajudando-a a ser criança é um papel do qual não podemos nos eximir e cabe dizer que além de necessário é também um papel muito gratificante.

 

Internet, boa ou má? Depende da utilização.

As possibilidades que a internet oferece são inequívocas. Esta ferramenta da tecnologia moderna é dinâmica, democrática e pode ser didática, porém, aliada a tudo isso está a liberdade total, muitas vezes metamorfoseando-se em libertinagem. A discussão presente não se refere à moralidade da internet, e sim à sua possibilidade de ser agente no desenvolvimento infantil e mostrando que o problema da má influência da internet não está na sua existência, e sim no seu mau uso.

 

O desenvolvimento da criança

A criança para um desenvolvimento saudável tanto cognitivo quanto social precisa de atividades concretas, reais. O “brincar” de maneira efetiva com outras crianças e atividades que tragam o lúdico aliados à interação do real e da fantasia infantil são componentes essenciais para o aprendizado e a socialização além de ser ferramenta para apreensão do mundo em que vive pela criança. O virtual não pode exercer o papel do real no desenvolvimento infantil.

 

Ouvindo Wallon e Vygotsky

A totalidade de Wallon em que ele cita que o motor, o afetivo e o cognitivo são indissociáveis e que a integração de todos esses aspectos resulta e age na pessoa é um procedimento que mostra que a atividade que a criança exerce em frente a um computador é um agente do desenvolvimento infantil e que por ser formador ou transformador da personalidade infantil e, portanto, agente do comportamento infantil deve ser tratada como uma ferramenta do desenvolvimento da criança. Negligenciar a atuação da internet sobre o desenvolvimento da criança é fragmentar a visão de totalidade da criança.

Vygotsky que o “brincar” da criança é coisa séria e que a imaginação, a fantasia e o brinquedo não são apenas atividades de prazer, mas sim necessidades para o seu desenvolvimento. A apreensão do mundo em que vive em suas brincadeiras acontece através de experiências reais embora lúdicas e o virtual não consegue ser substituto do real.

 

Criança sendo criança

A criança precisa brincar, viver situações de interação com outras crianças em situações reais, contar e viver histórias originadas a partir dela ou criadas para elas e tudo no tempo e na condição adequados ao seu estágio de desenvolvimento. Cabem aos responsáveis pela educação e formação das crianças assumirem esse papel espontânea e exclusivamente e não a internet ser esse agente.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BERGER, Kathleen Stassen O desenvolvimento da pessoa da infância à terceira idade  5.ed.Rio de Janeiro: LTC Livros Técnicos e Científicos Editora S.A, 2001. p.3

MAHONEY, Abigail Alvarenga Henri Wallon - Psicologia e Educação Introdução 5.ed.São Paulo: Edições Loyola, 2005, p.15 e 17

 JOBIM E SOUZA, Solange Infância e linguagem Bakhtin, Vygotsky e Benjamin 1.ed. Campinas-SP: Papirus Editora, 1994, p. 148

 LEVIN, Esteban A função do filho Espelhos e labirintos da infância 1.ed. Petrópolis-RJ: Editora Vozes, 2001. p.19

 SUNDERLAND, Margot O valor terapêutico de contar histórias Para as crianças, pelas crianças 1.ed. São Paulo: Cultrix, 2005. p. 15 e 16

 PACHECO, Elza Dias Jogos digitais e internet no cotidiano infantil  Tese de doutorado e Ciências da Comunicação defenfida em 04/2005 no Depto. Comunic. e Artes da Escola de Comunicação e Artes da USP