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As idéias de Jung

 

 

 

 

Jung ainda é contestado pelos positivistas e defensores da unilateralidade que não se afinam com os conceitos humanistas de Jung e com a dualidade na unidade. Hoje a natureza bipolar vem fazendo parte das descobertas científicas, como o photon que é ao mesmo tempo energia e matéria encontrando grande ressonância na física quântica, como também esta bipolaridade é presente nas religiões e mitos, como a declaração do Cristo de que ele era alfa e ômega ou do gênesis bíblico onde a criação consiste nas polaridades masculina e feminina simbolizadas por Adão e Eva. A dualidade dos conceitos de Jung, como o homem e anima, a mulher e o animus, o inconsciente pessoal e o inconsciente coletivo, Self e ego, são fundamentos que encontram ecos subjetivos, o que incomoda aqueles que buscam o entendimento puramente na objetividade.

Jung considera os símbolos como expressões da natureza humana, vê no ser humano um ser que atua com insights e sincronicidades, vendo no homem aspectos espirituais, fazendo do ser humano um ser transcendente.

Jung vê o homem como um ser que busca a totalidade através da realização arquetípica da personalidade e com energias naturais que necessitam atuar harmoniosamente, divergindo do pansexualismo da psicanálise como se vê nas definições de libido pela psicanálise e de energia psíquica na psicologia analítica.

Uma boa parte da psicologia junguiana pode ser interpretada como uma tentativa parcial de Jung para encontrar um substituto para a fé ortodoxa em que fora criado, mas contra a qual começou a se rebelar desde cedo.

   Jung interessava-se por ciência natural e perfeitamente instigado pela necessidade de objetividade. Mas estava instigado de sua própria preocupação íntima com a especulação religiosa, com a filosofia e a busca de valor e significado, interesses a que é difícil aplicar os critérios rigorosos da ciência e em que a subjetividade tem, forçosamente, um lugar assegurado. Pareceu a Jung que a psiquiatria seria capaz de preencher a sua necessidade de reconciliação de opostos em seu íntimo e a reconciliação de opostos é um tema que se faz presente em toda a obra de Jung.

     Por um lado Jung refere-se às suas idéia como um credo subjetivo, assim lhes negando validade universal. Por outro lado, escreveu sobre a “psique objetiva” (um sinônimo de inconsciente coletivo) como esfera de funcionamento mental inteiramente separada da experiência pessoal ou de qualquer vestígio de subjetividade.

    A partir dos doze anos, Jung concebeu a idéia de que também consistia em duas personalidades, sendo uma a de um escolar que estava algo incerto sobre si mesmo, solitário e pouco à vontade no mundo e a outra, era a de um ancião de grande autoridade, que impunha respeito, era influente, poderoso e seguro de si mesmo. Temos então novos pares de opostos, desta vez manifestando-se como personalidade distinta e não, simplesmente, como diferentes aspectos da mesma personalidade, como no caso dos interesses “objetivos” e “subjetivos” de Jung.

     Assim, alguns dos arquétipos, especialmente as figuras de “anima”, “animus” e “velho sábio”, foram personificados dessa maneira. Além disso, Jung encorajou os seus pacientes a manterem diálogos com essas “figuras provenientes do inconsciente” como se fossem pessoas reais no mundo externo. Para ele, provavelmente, eram tão reais, de fato, quanto às pessoas com quem estavam em contato na vida cotidiana. A linguagem que ele usa a respeito de tais figuras sugere que, como os médiuns acreditam, Jung considerava-as existentes num “mundo imperecível”, manifestando-se de tempos em tempos através da psique de um indivíduo.  

      Essa ênfase sobre a dissociação e a divisão foi reforçada pela experiência clínica de Jung. Depois de qualificar-se como médico, ele obteve, em dezembro de 1900, um cargo de assistente no hospital psiquiátrico Burghölzli, em Zurique, a cidade em um de cujos subúrbios ele iria viver o resto de sua vida. No hospital, o seu interesse concentrou-se na esquizofrenia (ou “demência precoce”, como esse distúrbio era então chamado). Observou Jung que, na esquizofrenia, a personalidade do paciente não era bem dividida em duas ou mais partes claramente distinguíveis, mas, antes, fragmentada, isto é, mais desintegrada do que meramente dissociada.

       Foi durante a época que passou no hospital Burghölzli que Jung também realizou algumas observações que o levariam a hipótese de um inconsciente “coletivo”, em oposição a um inconsciente meramente pessoal. Os seus conhecimentos de filosofia, de religião comparada e de mitos levaram-no a estabelecer comparações entre esse material e as fantasias e delírios dos esquizofrênicos. Descobriu numerosos paralelos e concluiu que a esquizofrenia como que punha a descoberto, por assim dizer, um nível da mente mais profundo do que poderia ser explicado em termos de repressão pessoal e de vicissitudes de infância. Para Jung o ser humano deve ser considerado como uma totalidade e não deve ser excluído o contexto em que ele vive, seja no sentido social, cultural, espiritual e/ou universal. Jung pesquisou a natureza humana em diversos segmentos: arqueologia, religiões, física, alquimia, arte, mitologia e outros.

(Paulo Rogério da Motta - 2006)

Bibliografia:

CLARKE, J. J. Em busca de Jung  Rio de Janeiro: Ediouro, 1993. p.45

JUNG. C. G. Estudos psiquiátricos Coleção Obras completas de C. G. Jung - Volume I Petrópolis: Editora Vozes, 1993. p.09-10-11-12

JUNG (1987), C.G. Fundamentos da Psicologia Analítica  4.ed. Petrópolis: Editora Vozes, 1987.p.34-35-36

JUNG, C. G. Psicologia do Inconsciente  14.ed.vol.VII/1. Petrópolis: Ed. Vozes

MOTTA, Arnaldo Alves Psicologia Analítica no Brasil; contribuições para a sua história São Paulo: PUC, Tese para obtenção de mestrado, 2005

STORR, Anthony As idéias de Jung  São Paulo: Cultrix, 1978. p.123

Revista Viver Mente & Cérebro - Coleção Memória da Psicanálise Jung - A psicologia analítica e o resgate do sagrado  2.ed.São Paulo: Ediouro, 2005.98p.