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Nascer para sonhar 

Um romance de Paulo Rogério da Motta

O cotidiano é repleto de magia e encanto quando o simbolismo que há em tudo é percebido. A sincronicidade, o mítico e o sagrado são ingredientes da história que se inicia com um sonho onírico e culmina com a realização do sonho como aspiração da alma.

Traduzindo o Euniverso

 

 

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Eunivers

Em cada um... um universo

 


Sonhos

Voltaire

 

Mas como, estando todos os sentidos mortos no sono, existe um sentido que vive? Como, nossos olhos não vendo mais, vossos ouvidos nada entendendo, vedes, contudo, e ouvis em vossos sonhos? O cão está na caça, em sonho; late, segue a presa. O poeta faz versos dormindo; o matemático vê figuras; o metafísico raciocina bem ou mal: temos exemplos contundentes.
     
Serão esses os únicos órgãos da máquina que funcionam? É a alma pura que, subtraída ao império dos sentidos, usufrui dos seus direitos em liberdade?
     
Se os órgãos, por si sós, produzem os sonhos à noite, por que não produzirão também, sós, as idéias de dia? Se a alma pura, tranqüila, no repouso dos sentidos, agindo por si própria é a causa única, o sujeito único de todas as idéias que tendes dormindo, por que serão essas idéias quase sempre irregulares, desarrazoadas, incoerentes? Como! É no momento em que essa alma está menos turbada que ela tem mais perturbações em todas as suas imaginações! Ela está livre e é louca! Se houvesse nascido com idéias metafísicas como o dizem tantos escritores que sonham de olhos abertos, suas idéias puras e luminosas do Ser, do infinito, de todos os primeiros princípios deveriam despertar em si com a maior energia quando o corpo está adormecido: nunca se seria bom filósofo senão em sonho.
     
Seja qual for o sistema que abraceis, sejam quais forem os esforços vãos que façais para provar a vós mesmos que a memória agita o vosso cérebro, que vosso cérebro agita vossa alma, é mister convirdes em que todas as vossas idéias vos acodem durante o sono, sem vós e apesar de vós: vossa vontade não intervêm aí. É portanto certo que podeis pensar sete ou oito horas seguidas sem ter a mínima vontade de pensar, sem mesmo estar seguro de que pensais. Ponderai isto tudo: procurai adivinhar o que vem a ser o complexo do animal.
     
Os sonhos foram sempre um grande objeto de superstição; nada mais natural. Um homem vivamente comovido pela doença de sua amante sonha que a vê morrer; ela morre no dia seguinte: portanto, os deuses predisseram-lhe a sua morte.
     
Um general do exército sonha que vence uma batalha; ganha-a, com efeito: os deuses o advertiram de que seria vencedor.
     
Não se levam em consideração senão os sonhos que foram confirmados; esquecem-se os outros. Os sonhos participam grandemente da história antiga, tal como os oráculos.
     
Assim traduz a Vulgata o fim do versículo 26 do cap. 19 do Levítico: “Não observareis os sonhos”. Mas o termo sonho não existe no hebraico e seria muito estranho que se reprovasse a observação dos sonhos no próprio livro em que se diz que José se tornou o benfeitor do Egito e de sua família mediante a explicação de três sonhos.
     
A explicação dos sonhos era uma coisa tão comum que a gente não se limitava a essa prática: era preciso ainda adivinhar algumas vezes o que outro homem sonhara. Nabucodonosor, tendo olvidado um sonho que tivera, ordenou aos seus magos a sua adivinhação, e os ameaçou de morte caso não chegassem a bom fim; mas o judeu Daniel, que era da escola dos magos, salvou-lhes a vida adivinhando o sonho do rei, com a respectiva interpretação. Essa história e muitas outras poderiam servir para provar que a lei dos judeus não proibia a oneiromancia, isto é, a ciência dos sonhos.

Dicionário Filosófico (1764) de Voltaire