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Sonhos

Voltaire

 

 

 

 

Mas como, estando todos os sentidos mortos no sono, existe um sentido que vive? Como, nossos olhos não vendo mais, vossos ouvidos nada entendendo, vedes, contudo, e ouvis em vossos sonhos? O cão está na caça, em sonho; late, segue a presa. O poeta faz versos dormindo; o matemático vê figuras; o metafísico raciocina bem ou mal: temos exemplos contundentes.
     
Serão esses os únicos órgãos da máquina que funcionam? É a alma pura que, subtraída ao império dos sentidos, usufrui dos seus direitos em liberdade?
     
Se os órgãos, por si sós, produzem os sonhos à noite, por que não produzirão também, sós, as idéias de dia? Se a alma pura, tranqüila, no repouso dos sentidos, agindo por si própria é a causa única, o sujeito único de todas as idéias que tendes dormindo, por que serão essas idéias quase sempre irregulares, desarrazoadas, incoerentes? Como! É no momento em que essa alma está menos turbada que ela tem mais perturbações em todas as suas imaginações! Ela está livre e é louca! Se houvesse nascido com idéias metafísicas como o dizem tantos escritores que sonham de olhos abertos, suas idéias puras e luminosas do Ser, do infinito, de todos os primeiros princípios deveriam despertar em si com a maior energia quando o corpo está adormecido: nunca se seria bom filósofo senão em sonho.
     
Seja qual for o sistema que abraceis, sejam quais forem os esforços vãos que façais para provar a vós mesmos que a memória agita o vosso cérebro, que vosso cérebro agita vossa alma, é mister convirdes em que todas as vossas idéias vos acodem durante o sono, sem vós e apesar de vós: vossa vontade não intervêm aí. É portanto certo que podeis pensar sete ou oito horas seguidas sem ter a mínima vontade de pensar, sem mesmo estar seguro de que pensais. Ponderai isto tudo: procurai adivinhar o que vem a ser o complexo do animal.
     
Os sonhos foram sempre um grande objeto de superstição; nada mais natural. Um homem vivamente comovido pela doença de sua amante sonha que a vê morrer; ela morre no dia seguinte: portanto, os deuses predisseram-lhe a sua morte.
     
Um general do exército sonha que vence uma batalha; ganha-a, com efeito: os deuses o advertiram de que seria vencedor.
     
Não se levam em consideração senão os sonhos que foram confirmados; esquecem-se os outros. Os sonhos participam grandemente da história antiga, tal como os oráculos.
     
Assim traduz a Vulgata o fim do versículo 26 do cap. 19 do Levítico: “Não observareis os sonhos”. Mas o termo sonho não existe no hebraico e seria muito estranho que se reprovasse a observação dos sonhos no próprio livro em que se diz que José se tornou o benfeitor do Egito e de sua família mediante a explicação de três sonhos.
     
A explicação dos sonhos era uma coisa tão comum que a gente não se limitava a essa prática: era preciso ainda adivinhar algumas vezes o que outro homem sonhara. Nabucodonosor, tendo olvidado um sonho que tivera, ordenou aos seus magos a sua adivinhação, e os ameaçou de morte caso não chegassem a bom fim; mas o judeu Daniel, que era da escola dos magos, salvou-lhes a vida adivinhando o sonho do rei, com a respectiva interpretação. Essa história e muitas outras poderiam servir para provar que a lei dos judeus não proibia a oneiromancia, isto é, a ciência dos sonhos.

Dicionário Filosófico (1764) de Voltaire