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Nascer para sonhar 

Um romance de Paulo Rogério da Motta

O cotidiano é repleto de magia e encanto quando o simbolismo que há em tudo é percebido. A sincronicidade, o mítico e o sagrado são ingredientes da história que se inicia com um sonho onírico e culmina com a realização do sonho como aspiração da alma.

Traduzindo o Euniverso

 

 

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Eunivers

Em cada um... um universo

A beleza de tudo reside na retina da alma.

 


Aquele que soube venerar a Deus

Paulo Rogério da Motta

Do livro "Nascer para sonhar"

 

Uma pequena estória:

 “Deus fala para uma pequena aldeia muito religiosa:

 - Como prova de amor a Mim, quero ao final de trinta dias, a mais bela flor que houver na aldeia e aquele que me trouxer a flor será reconhecido a partir de então, como ‘aquele que soube venerar a Deus’.

 O líder religioso da pequena aldeia lembra o povoado da flor lindíssima que nascia uma vez por ano na encosta do penhasco a alguns quilômetros dali e que esta era justamente a época em que a flor nascia. O líder religioso deduziu e falou ao povoado que Deus por certo se referira àquela flor. A partir daí teve início a busca pela flor preciosa: muitos desistiram pelo perigo que havia, afinal, muitos já haviam morrido naquele penhasco; outros insistiram e novamente tentaram e também encontraram a morte e assim foi no decorrer de vinte e nove dias, até que, no trigésimo, o último dia do prazo dado por Deus, o líder religioso heroicamente conseguiu apanhar a flor. Houve festa na pequena aldeia e o povo consagrou o líder religioso como “aquele que sabe venerar a Deus” mesmo antes de Deus declará-lo como tal. No final da tarde, Deus, como havia dito, apareceu para o povoado:

 - Hoje é o trigésimo dia, quem tem a mais bela flor?

 Todos na aldeia apontaram para o líder religioso que tinha nas mãos a flor que apanhara no penhasco. O líder religioso dirigiu-se a Deus e entregou-lhe a flor.

 - Aqui está, meu Senhor!

 Deus apanhou a flor e disse:

 - Realmente ela é muito bela e sei que custou a vida de muitos. - Deus olhou para a multidão e perguntou: - Mais ninguém tem uma flor para me presentear?

 Fez-se silêncio na aldeia até que um menino saiu do meio da multidão com um pequeno vaso nas mãos e dirigiu-se a Deus.

 - Eu tenho meu Senhor!

 O povoado riu quando o menino entregou um vaso com uma pequena planta, que brotara há apenas alguns dias e sem flor alguma. Deus recebeu o vaso do menino, esperou todos acabarem de rir, beijou a face do garoto e declarou a todos:

 - A partir de hoje, este menino será reconhecido como “aquele que soube venerar a Deus”.

 O povoado não entendeu e em meio ao burburinho surgiu o brado indignado do inconformado líder religioso.

 - Não pode ser Senhor! Neste vaso sequer há uma flor e mesmo que houvesse, ela não seria mais bela que a flor que eu lhe dei!

 Deus voltou-se para o indignado líder religioso:

 - A flor que você me deu é realmente muito bela e Eu sei disso, afinal, fui Eu quem a plantei, e quanto ao vaso que este menino me entregou, há muitas flores nele e vocês não conseguem vê-las porque elas ainda não nasceram, mas Eu consigo enxergá-las em cada semente e Eu posso lhes garantir que as flores que nascerão, e que então se tornarão visíveis aos seus olhos, serão mais belas do que esta que você me deu; e mais, as flores que estão neste vaso foram regadas e tratadas durante os últimos trinta dias com muito amor e com o intuito único de serem um presente para Mim; este garoto em nenhum momento buscou o título que acabou de ganhar. Ele além “de ser merecedor ainda me ajudou na tarefa de florir o mundo.”

 “... porque o Senhor não vê como vê o homem. O homem vê o exterior, porém o Senhor, o coração”.