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Em cada um... um universo

A beleza de tudo reside na retina da alma.

 


O outro

Paulo Rogério da Motta

 

Era algo assim. Ele jazia imóvel sentado no banco de um ônibus. Jazia porque era como se já tivesse vivido os últimos instantes da vida, aquele momento onde tudo passa diante dos nossos olhos. O passado à sua frente. O passado sendo o presente. O futuro jaz como ausente.

Era algo assim. Ele com alguém ao seu lado. Os olhos vidrados na janela que descortina a vida com o viajar do ônibus. Um olhar ávido de nada que fita o infinito, algum além. Em breve chegará o seu ponto, mas onde estaria seu ponto de vista? Talvez ancorado no passado ou quem sabe fincando bandeira em algum solo do futuro. Como saber? Tudo talvez, por acaso ou em algum ocaso. Em breve chegaria em casa, mas aonde estaria agora? Talvez a pessoa ao lado, se é que havia alguma, quisesse lhe tocar, mas e se por ventura o seu toque sentisse um corpo rígido, frio?Alguém toca a campainha. Clarins do apocalipse? Tanto faz. Ele segue impávido em seu itinerário sem pontos, sem vírgulas e sem acentos.

Era algo assim. Estranho. Um corpo ocupando espaço. Explicável para a física e inexplicável para a metafísica. Ele era e não estava ou talvez e por acaso estava e não era. Mas em que era estava? Talvez em todas, talvez em nenhuma. Quem sabe não fosse era, e sim fosse e sabe-se lá se ainda não seria? O tempo é como ele era. Um tempo sem minutos, sem horas, sem dias, sem noites, sem semanas, sem meses, sem anos, sem séculos, sem milênios, sem passado, sem eras, sem futuro, só o presente, o eterno presente, o infinito agora. O presente como presente de Deus e tudo que fosse a mais eram invencionices do bicho homem. O homem divide e subdivide o tempo para poder em um dia nascer e em um dia morrer, sem perceber que o tempo é imutável, inteiriço e ininterrupto, assim como ele. E quando chegasse o ponto final, o que fariam com ele? E a questão persiste: o que estaria ele fazendo agora? O peito se movimentando, arfando e isso o rotulava como um vivo. Vem à minha mente a imagem do mar, das suas ondas indo e voltando, arfando. Haveria alguém dentro daquele ser?

Pela janela passa uma funerária e ele não desceu. Dedução lógica: ele não morreu.

Observo agora um leve franzir de nariz, mas logo desaparece. Tudo breve, feito um terremoto e quantos “eles” não haveriam ali morrido naquele breve instante. Mas o que é o tempo ? Mais que um eterno instante?

E em sua estante, o que haveria? Clarice Lispector? Fernando Pessoa? Helena P. Blavatsky? Um diário? Um jornal?

Em que estado ele estaria? Sólido? Líquido? Gasoso? Etérico? Como saber? Basta tocá-lo, mas e o medo?Ele se importaria ou somente haveria um curto-circuito?

O meu ponto se aproxima, meu ponto de fuga. Eu tinha onde descer e por isso eu diferia dele, mas por que se estamos no mesmo banco, no mesmo barco? Levanto-me, passo a catraca e creio que ele ali permaneceu imóvel, imutável. Desço e ele não. Perambulo nas ruas olhando vitrines, procurando algo, assim como ele procurava. Paro numa esquina diante de uma vitrine e de novo ele. De dentro da vitrine me observa. O que faria ele ali? Ele também desceu. Teria sido junto comigo? Não. Ele deve fazer tudo sozinho. Teria me seguido? Não. Eu não serviria de guia para alguém como ele. Por que ele me olha? Fito-o e noto seus olhos fixos no nada. Viro-me para bravamente ficar frente a frente com ele e reviro-me no avesso ao vê-lo me encarar. Frente a frente e então desvendo que naquele ônibus eu estava sentado naquele banco e era um banco vazio com o vidro da janela ao meu lado. Sempre fui eu que estive comigo. Agora entendo porque tanto medo. Estendo a mão para o meu reflexo na vitrine. Estendo minha mão direita e ele estende a esquerda. Ele e não eu? É. Ele é canhoto e eu não.

-Prazer em me conhecer.

Silêncio. Que tolice a minha pensar que ele fosse eu. Ele é mudo e eu não. Sigo em meu caminhar, rindo de mim, porém atento àquele vulto negro que me segue rastejando pelo chão. Cada louco neste mundo!!!