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Nivânia Maranhão

(Paulo Rogério da Motta)

 

 

 

Nivânia...

Seu Nirvana é o Maranhão.

Os olhos que fitam um ponto.

Os pés descalços no chão.

Na escola a luta inglória por um ponto,

E assim, os sonhos também ficam descalços no chão.

Nivânia...

Nivânia menina.

Nivânia que tem medo.

Nivânia que carrega o medo como sina

E no medo da menina

A via-crucis que começou cedo.

Nivânia...

Dez anos de vida,

Quase todos de medo.

Na escola a constante dívida,

As notas sempre menores que o medo.

Nos números frios da matemática o gélido horror.

Nas quentes letras do português a oportunidade de mostrar a dor.

A professora pede a redação de felicidade,

Mas Nivânia escreve sobre tristeza

E nem poderia ser diferente,

Afinal, são dez anos de vida

E em sua matemática de vida são onze anos de medo.

E se a felicidade morasse na idade?

Então Nivânia seria contente,

Mas para Nivânia a felicidade mora no Maranhão;

Para ela São Paulo é um beco

E sem saída.

Nivânia...

Nivânia menina.

Despojada, descalça e caída.

Menina que chora pra aprender,

Que não quer pisar na lama

E que em dia de chuva vai no lombo de Nivaldo pai,

Feito cruz a ser carregada.

Viaja na via-crucis para na escola ser crucificada

Por nada aprender

Viver é temer !!!

Que triste trama !!!

Oh Pai !!!

Cuida de Nivânia ovelha desgarrada

Que caminha descalça na vida no fio de uma navalha,

Que vive uma vida que nada valha.

Nivânia...

Menina de olhos arregalados

Que se esconde atrás das lentes dos óculos baratos,

De corpo franzino e rabo-de-cavalo.

A menina doente.

Doente porque não sabe ser feliz,

Que faz com que o sorriso seja um escancarar de dentes

E que a felicidade na alma seja apenas uma cicatriz.

Nivânia...

Filha de Antonia,

Irmã mais velha de Nivaniel.

Agradece a mãe ao Deus Pai,

Excomunga a vida por nela não ter caminho para o céu

E logo o céu que fica ali tão perto,

Logo depois de Tocantins,

Mas como chegar ao Nirvana Maranhão

Se ele fica depois de todo e qualquer fim?

Nivânia que tem medo do certo

E assim, na escola, errar vira solução.

Nivânia que não quer ser do Jardim dos Trabalhadores

Nem do bairro dos Sem Terra,

Nivânia quer ser “Nivânia do Maranhão”.

E Pai Nosso que estais no céu,

Livra Nivânia das dores

E aqui na Terra

Deixa ela alcançar o céu.

Em nome do pai Nivaldo, da mãe Antonia e do pequenino Nivaniel.

Nivânia Maranhão...

Esquizofrênica enjaulada em tábuas de um barraco novo.

Nivânia que se engana,

Que diz pra si mesma que sua felicidade mora no mapa

Em ruas de barro e no meio do seu povo,

Que diz que Papai do Céu mora no Maranhão.

Oh, triste menina !!!

Oh, maldita sina

De ter nascido Nivânia!!!

Nivânia que hoje com sua família sumiu.

Talvez tenham botado os pés na estrada rumo ao Maranhão

Atendendo aos apelos da menina que se engana

E que quando teve que enfrentar a vida, fugiu.

Nivânia que se chegar ao Maranhão

Vai lembrar-se da São Paulo cidade,

Descobrir que no meio do concreto talvez morasse a tal felicidade

E vai então agora querer fugir do Maranhão.

Mas aonde quer que Nivânia vá

Sua alma irá com ela.

E é ela que está doente.

E a sua alma, vazia como a sua barriga e panela,

Vai perceber que a felicidade mora no sonho

E que por melhor que seja a escola,

E que por mais difícil que seja a vida,

Menina Nivânia vai ver que esmola não paga dívida:

A dívida chamada medo.

Enquanto isso cresce na alma a cicatriz.

Cicatriz forjada a cada dia pelo medo de ser feliz.

Medo, o câncer da alma!!!

Agora à Nivânia menina cabe apenas dizer:

Calma, calma !

A vida tem jeito !

Arranca teu medo do peito !

Vai menina!

Pisa lama,

Tira vermelho na escola,

Faz do Maranhão qualquer aqui e agora,

Ria da desgraça

E você vai ver que viver até que tem graça.

Faz tudo isso Nivânia

E você vai ver que não é no Maranhão

E sim na escola da vida que se encontra o Nirvana.

Vai Nivânia, vai!