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Trecho da peça:

 

MONTECCHIO

&

CAPULETO

 

(Registro SBAT nº 29752 em 02/02/1993)

Drama

Peça em 3 atos

 

Autor:

Paulo Rogério da Motta

 

Personagens:

Montecchio

Capuleto

Isabel

 

Época atual

 

 

 

 

ATO I

 

Cenário: O cemitério

 

Cena Única

 

Surge um funeral. O ataúde é carregado por Montecchio e pessoas que desconhecem o morto, um gesto de solidariedade de estranhos. O cortejo segue em silêncio. Montecchio não chora, apenas acompanha a tudo cabisbaixo. Ao fundo um réquiem. O cortejo passa pelo corredor central do auditório, por entre os espectadores e tem seu final no palco, lugar onde acontece o sepultamento. A música continua alta e Montecchio começa a soluçar, é um choro quase inaudível à platéia. Os estranhos retiram-se fazendo um a um o sinal da cruz em respeito ao falecido. A música diminui na proporção em que o choro de Montecchio se torna mais alto. Montecchio cai de joelhos junto à sepultura, o réquiem agora é um fundo musical e persiste assim até o momento em que cessa junto com o choro de Montecchio que se levanta, porém, ainda fitando a sepultura, como quem olha absorto o céu azul.

 

Montecchio

Será a dor de um parto tão triste quanto a dor que sinto agora? Que terríveis segredos a morte esconde a ponto de fazer da dor dos que aqui ficam uma simples peça do seu disfarce? Choro, mais por mim do que por você! Choro pela sua morte, mas também pela minha vida, vida que a partir de sua ida passa a ser uma folha em branco esperando pela assinatura da morte, a terra que agora lhe esconde é o solo do meu calvário e as lágrimas com que rego esta terra servem apenas para enraizar ainda mais o meu ser em minha própria dor. Ah, como seria bom se conseguíssemos entender o porquê de Deus, mas como seria possível tal coisa se mal conseguimos entender o porquê do homem! Você que se foi era digno de uma multidão em sua despedida e, no entanto, aqui estou eu, não somente triste, mas também solitário. Despedir, mas despedir como se o ser que agora habita o meu calvário primeiro habitou o meu próprio ser? Então terei morrido também? Não. A morte me seria boa demais e não causaria a dor que sinto agora. Sei que o tempo amainará a dor desta ferida, mas sei também que esta cicatriz me será eterna como também será eterna a minha incompreensão, mas o que importa? De que vale a minha dor ou a minha incompreensão para o mundo? O mundo que dita normas, regras, preconceitos e proibições é exato demais para ser complacente com aqueles que ousam desafiar as justas medidas de suas moralidades. Talvez você esteja apenas escondido sobre este denso véu de terra, escondido em razão da vergonha de ter feito parte deste mundo! “A beleza de tudo reside na alma de cada um”. Meu Deus, como existem pessoas cegas! (Observa apontando as outras sepulturas) Afortunados! Invejo a todos vocês!

 

Clarões de relâmpagos. Som de trovão. Uma luz azulada dá lugar à luz normal.

 

Montecchio

É preciso voltar à realidade e enxergá-la como ela realmente é.

 

Novos clarões e relâmpagos.

 

Montecchio

(Senta-se ao lado da sepultura com as pernas cruzadas e passa a dialogar como se estivesse numa sala de estar). “Deus” também parece ter sentido a sua morte, veja como “Ele” fechou a cara! (Olha o céu) “Ele” por certo irá chorar também. (Estende a palma da mão). Já começo a sentir as suas lágrimas. (Fala absorto). É interessante nós dois aqui, é como se estivéssemos na sala do nosso apartamento, até parece que eu ouço a música, a nossa música.

 

É ouvido o “Prelúdio em Mi Menor”, de Chopin.

 

Montecchio

É Chopin! Você gostava de clássicos, eu não gostava até o momento em que você me ensinou a enxergar a beleza das coisas. (Chora) Desculpe, eu pretendia que só as lágrimas do “Senhor” é que viessem a molhar o seu leito novamente. Desculpe, eu... (Chora. A música cresce por alguns segundos e diminui no instante em que Montecchio enxuga os olhos) E o dia em que nos conhecemos! É incrível como o inconsciente às vezes premedita tudo naturalmente.

 

Novos clarões de relâmpagos. Som de trovão.

 

Montecchio

Preciso ir, preciso voltar à vida e ver o que me restou dela. Preciso ter paciência para esperar a hora da morte. Preciso aprender apenas com a sua lembrança. Eu também preciso dizer que... (Suspira) Adeus, adeus... (Desespera-se) Oh “Deus”, por que o adeus? (Gritando) Por quê? (Acalma-se. Olha o céu) Desculpe “Deus”. (Olha a sepultura) Desculpe-me... e adeus. (Beija a mão e leva de encontro à sepultura como se levasse de encontro ao rosto de alguém. Sorri, porém tristemente. Sai, fazendo o mesmo caminho que o cortejo fúnebre fizera em sua caminhada, às vezes pára, olha para trás, esboça dizer alguma coisa, desiste, e continua a caminhar, repetindo tal procedimento até estar preste a sair, quando então já na saída do auditório, pára e fita demoradamente a sepultura).

 

Clarões de relâmpagos, som de trovão e por fim a chuva.

 

Montecchio

“Ele” nem mesmo esperou que eu fosse embora. (Chora) Ao menos agora eu posso esconder minhas lágrimas nas “Dele”. Adeus, adeus amigo, adeus... querido... Capuleto. Obrigado por tudo e... um pouco mais. (Balbuciando) Eu... Eu... Eu... Bem! Adeus (Sai).  

 

A música cresce, o som da chuva torna-se mais intenso, a luz vai diminuindo e vai diminuindo também o som da música e da chuva, até que os três: a chuva, a luz e a música se extinguem por completo no palco totalmente escuro.

 

Fim da cena única.

 

Fim do primeiro ato.

 

 

 

ATO II

 

Cena I

  

Cenário

A sala do apartamento de Montecchio.

 

 

Montecchio entra em cena apenas com uma toalha envolta na cintura e enxugando os cabelos com outra.

 

 

Montecchio

Ah, parece que eu lavo a alma quando tomo um bom banho. Alguém deveria ter a idéia de inventar um sabonete para a alma. Ele poderia se chamar “almalive“. Já pensou? Se você está com o corpo astral encardido use “almalive”.  (Ri) Ou então poderia ser assim: se você é médium use “allmalive”, com “almalive” sempre cabe mais um. (Ri) Ah, na outra encarnação eu acho que eu fui um peixe. (Cantarola “Fascinação” e sai de cena, como se fosse para  o quarto. O seu canto continua sendo ouvido).

 

Toca a campainha da porta.

 

Montecchio

Já vai, já vai.

Novamente é tocada a campainha.

 

Montecchio

Já vai, já vai. Você não quer que um homem nu atenda a porta, não é?

 

Isabel

(Fora de cena) Até que não seria má idéia.

 

Montecchio

(Volta em cena trajando apenas uma bermuda. Pára diante da porta) Antes de eu abrir eu vou tentar adivinhar quem é, ok?

 

Isabel

(Fora de ;cena) Tá, mas não vale olhar pelo olho mágico.

 

Montecchio

Ok, ok, mas já que eu não posso olhar, então me dá uma pista.

 

Isabel

(Fora de cena) Hum, deixa eu ver! Ah, já sei! Você tem uma pinta na nádega esquerda.

 

 Montecchio

Ué, e isso por acaso é pista? O que tem na minha bunda eu sei, o que eu quero saber é quem está aí do outro lado da porta.

 

Isabel

(Fora de cena) Ahn, então deixa eu ver..., se você ainda estiver nu, é melhor vestir alguma coisa pois não é legal eu ficar vendo o meu irmão pelado.

 

Montecchio

Ah, vejamos, se quem está aí do outro lado diz que eu sou irmão dela, então você é... (Faz suspense) a minha irmã!

 

Isabel

(Fora de cena) Sabe maninho, desde que você saiu de casa, até que você ficou um pouquinho inteligente!

 

Montecchio

Também pudera, do jeito que o papai queria que eu ficasse de quatro, até já estava acreditando que eu era um burro. Escuta maninha, o papo está bom, mas você não preferiria conversar aqui dentro?

 

Isabel

(Fora de cena) É claro, mas você só acertou metade. Você não gostaria de adivinhar quem mais está aqui comigo?

 

Montecchio

É claro, me dê uma pista, mas que seja sobre a pessoa e não sobre a minha bunda.

 

Isabel

(Fora de cena) Éééé,... Deixa eu ver... Já sei! Eu não sei se eu gosto mais de você ou dele!

 

Montecchio

Meu “Deus”, finalmente eu vou ter a honra. (Abre a porta) Isabel, minha querida. (Beija-a) Sabia que você é minha irmã preferida?

 

Isabel

É lógico, eu sou sua única irmã. Bem, este é...

 

Montecchio

(Interrompendo-a) Capuleto.

Capuleto entra. Ele e Montecchio olham-se demoradamente.

 

Montecchio

Então é você?

 

Capuleto

Talvez.

 

Isabel

Pode dizer que é. Eu disse que você é o homem mais maravilhoso que existe na face da Terra.

 

Montecchio

Eu não acreditei. O homem mais maravilhoso da face da Terra e do resto do Universo também, mora ali no espelho do meu banheiro.

 

Riem. Montecchio e Capuleto cumprimentam-se apertando as mãos demoradamente.

 

Montecchio

Vamos entrar, vamos entrar, gente. Sentem-se.

 

Isabel e Capuleto sentam-se no sofá. Montecchio permanece de pé.

 

Montecchio

Poxa, se eu soubesse que vocês eu teria colocado o meu “smoking”!

 

Isabel

De que adiantaria? A hora que você abrisse a boca iria ficar a má impressão do mesmo jeito.

 

Capuleto

Engana-se, Isabel. Eu estou gostando do seu irmão.

 

Isabel

Ele engana bem.

 

Montecchio

(Fingindo-se de ofendido) Poxa Isabel, desse jeito ele vai pensar que eu não sou maravilhoso!

 

Riem.

 

Capuleto

Não se preocupe Montecchio, ela o acha maravilhoso, só que você devia ter perguntado enquanto ela estava do lado de fora. Isabel só elogia alguém quando há uma porta entre ela e a pessoa.

 

Riem.

 

Isabel

Como pode? Se conhecem a menos de cinco minutos e já se uniram contra mim! (Faz cara de criança triste)

 

Montecchio

(Ajoelha-se ao lado da irmã e a abraça) Que isso, maninha! (Beija-a) Você sabe que é minha irmã predileta. Eu sempre disse que nasci assim sem graça porque papai e mamãe colocaram todo o encanto que tinham em você.

 

Isabel

Ai, que irmãozinho maravilhoso que eu tenho!

 

Montecchio

Está vendo Capuleto, para você arrancar um elogio dela não é necessário uma porta, basta apenas falar algumas mentirinhas.

 

Riem. Isabel empurra Montecchio que cai sentado no chão e ali permanece.

 

Montecchio

E então, Capuleto? Eu imagino como você deve estar se sentindo, para mim sempre foi muito chato quando eu tinha que conhecer o irmão de minhas namoradas.

 

Capuleto

É, mas dá para agüentar.

 

Montecchio

No dia em que o irmão delas me conhecia, ele me apertava a mão, me oferecia uma bebida,... Você aceita uma bebida?

 

Capuleto

Não, não. Obrigado.

 

Montecchio

Então ele me oferecia uma bebida, apertava a minha mão no primeiro dia e a partir do segundo dia ele já queria apertar o meu pescoço e eu já não aceitava mais a bebida com medo dele ter colocado veneno dentro dela. Bom, de acordo com o “manual de procedimentos dos irmãos” o veneno só pode ser colocado a partir da segunda visita e hoje é a sua primeira visita, portanto, hoje você pode aceitar que não existe risco nenhum.

 

Capuleto

(Sorri) Eu não sei não ! Eu já fui envenenado logo no primeiro dia.

...por enquanto é só