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ATO I
Cenário: O
cemitério
Cena Única
Surge um funeral. O
ataúde é carregado por Montecchio e pessoas que desconhecem o morto, um gesto de
solidariedade de estranhos. O cortejo segue em silêncio. Montecchio não chora,
apenas acompanha a tudo cabisbaixo. Ao fundo um réquiem. O cortejo passa pelo
corredor central do auditório, por entre os espectadores e tem seu final no
palco, lugar onde acontece o sepultamento. A música continua alta e Montecchio
começa a soluçar, é um choro quase inaudível à platéia. Os estranhos retiram-se
fazendo um a um o sinal da cruz em respeito ao falecido. A música diminui na
proporção em que o choro de Montecchio se torna mais alto. Montecchio cai de
joelhos junto à sepultura, o réquiem agora é um fundo musical e persiste assim
até o momento em que cessa junto com o choro de Montecchio que se levanta,
porém, ainda fitando a sepultura, como quem olha absorto o céu azul.
Montecchio
Será a dor de um
parto tão triste quanto a dor que sinto agora? Que terríveis segredos a morte
esconde a ponto de fazer da dor dos que aqui ficam uma simples peça do seu
disfarce? Choro, mais por mim do que por você! Choro pela sua morte, mas também
pela minha vida, vida que a partir de sua ida passa a ser uma folha em branco
esperando pela assinatura da morte, a terra que agora lhe esconde é o solo do
meu calvário e as lágrimas com que rego esta terra servem apenas para enraizar
ainda mais o meu ser em minha própria dor. Ah, como seria bom se conseguíssemos
entender o porquê de Deus, mas como seria possível tal coisa se mal conseguimos
entender o porquê do homem! Você que se foi era digno de uma multidão em sua
despedida e, no entanto, aqui estou eu, não somente triste, mas também
solitário. Despedir, mas despedir como se o ser que agora habita o meu calvário
primeiro habitou o meu próprio ser? Então terei morrido também? Não. A morte me
seria boa demais e não causaria a dor que sinto agora. Sei que o tempo amainará
a dor desta ferida, mas sei também que esta cicatriz me será eterna como também
será eterna a minha incompreensão, mas o que importa? De que vale a minha dor ou
a minha incompreensão para o mundo? O mundo que dita normas, regras,
preconceitos e proibições é exato demais para ser complacente com aqueles que
ousam desafiar as justas medidas de suas moralidades. Talvez você esteja apenas
escondido sobre este denso véu de terra, escondido em razão da vergonha de ter
feito parte deste mundo! “A beleza de tudo reside na alma de cada um”. Meu Deus,
como existem pessoas cegas! (Observa apontando as outras sepulturas)
Afortunados! Invejo a todos vocês!
Clarões de
relâmpagos. Som de trovão. Uma luz azulada dá lugar à luz normal.
Montecchio
É preciso voltar à
realidade e enxergá-la como ela realmente é.
Novos clarões e
relâmpagos.
Montecchio
(Senta-se
ao lado da sepultura com as pernas cruzadas e passa a dialogar como se estivesse
numa sala de estar).
“Deus” também parece ter sentido a sua morte, veja como “Ele” fechou a cara!
(Olha o céu) “Ele” por certo irá chorar também. (Estende a palma da mão).
Já começo a sentir as suas lágrimas. (Fala absorto). É interessante nós
dois aqui, é como se estivéssemos na sala do nosso apartamento, até parece que
eu ouço a música, a nossa música.
É ouvido o
“Prelúdio em Mi Menor”, de Chopin.
Montecchio
É Chopin! Você
gostava de clássicos, eu não gostava até o momento em que você me ensinou a
enxergar a beleza das coisas. (Chora) Desculpe, eu pretendia que só as
lágrimas do “Senhor” é que viessem a molhar o seu leito novamente. Desculpe,
eu... (Chora. A música cresce por alguns segundos e diminui no instante em
que Montecchio enxuga os olhos) E o dia em que nos conhecemos! É incrível
como o inconsciente às vezes premedita tudo naturalmente.
Novos clarões de
relâmpagos. Som de trovão.
Montecchio
Preciso ir,
preciso voltar à vida e ver o que me restou dela. Preciso ter paciência para
esperar a hora da morte. Preciso aprender apenas com a sua lembrança. Eu também
preciso dizer que... (Suspira) Adeus, adeus... (Desespera-se) Oh
“Deus”, por que o adeus? (Gritando) Por quê? (Acalma-se. Olha o céu)
Desculpe “Deus”. (Olha a sepultura) Desculpe-me... e adeus. (Beija a mão e leva de encontro à sepultura como se levasse de
encontro ao rosto de alguém. Sorri, porém tristemente. Sai, fazendo o mesmo
caminho que o cortejo fúnebre fizera em sua caminhada, às vezes pára, olha para
trás, esboça dizer alguma coisa, desiste, e continua a caminhar, repetindo tal
procedimento até estar preste a sair, quando então já na saída do auditório,
pára e fita demoradamente a sepultura).
Clarões de
relâmpagos, som de trovão e por fim a chuva.
Montecchio
“Ele” nem mesmo
esperou que eu fosse embora. (Chora) Ao menos agora eu posso esconder
minhas lágrimas nas “Dele”.
Adeus, adeus amigo, adeus... querido... Capuleto. Obrigado por tudo e... um
pouco mais. (Balbuciando) Eu... Eu... Eu... Bem! Adeus (Sai).
A música cresce, o
som da chuva torna-se mais intenso, a luz vai diminuindo e vai diminuindo também
o som da música e da chuva, até que os três: a chuva, a luz e a música se
extinguem por completo no palco totalmente escuro.
Fim da cena
única.
Fim do primeiro ato.

ATO II
Cena I
Cenário
A sala do
apartamento de Montecchio.
Montecchio entra em cena apenas com uma toalha envolta na cintura e enxugando os
cabelos com outra.
Montecchio
Ah, parece que
eu lavo a alma quando tomo um bom banho. Alguém deveria ter a idéia de inventar
um sabonete para a alma. Ele poderia se chamar “almalive“. Já pensou? Se você
está com o corpo astral encardido use “almalive”. (Ri) Ou então poderia
ser assim: se você é médium use “allmalive”, com “almalive” sempre cabe mais um.
(Ri) Ah, na outra encarnação eu acho que eu fui um peixe. (Cantarola “Fascinação” e sai de cena, como se fosse para o
quarto. O seu canto continua sendo ouvido).
Toca a campainha
da porta.
Montecchio
Já vai, já vai.
Novamente é
tocada a campainha.
Montecchio
Já vai, já vai. Você
não quer que um homem nu atenda a porta, não é?
Isabel
(Fora de
cena) Até que
não seria má idéia.
Montecchio
(Volta em
cena trajando apenas uma bermuda. Pára diante da porta) Antes de eu abrir eu vou tentar
adivinhar quem é, ok?
Isabel
(Fora de
;cena) Tá, mas
não vale olhar pelo olho mágico.
Montecchio
Ok, ok, mas já que
eu não posso olhar, então me dá uma pista.
Isabel
(Fora de
cena) Hum,
deixa eu ver! Ah, já sei! Você tem uma pinta na nádega esquerda.
Montecchio
Ué, e isso por acaso é pista? O
que tem na minha bunda eu sei, o que eu quero saber é quem está aí do outro lado
da porta.
Isabel
(Fora de cena) Ahn, então deixa eu ver..., se você ainda estiver nu, é
melhor vestir alguma coisa pois não é legal eu ficar vendo o meu irmão pelado.
Montecchio
Ah, vejamos, se quem está aí do
outro lado diz que eu sou irmão dela, então você é... (Faz suspense) a
minha irmã!
Isabel
(Fora de cena) Sabe maninho, desde que você saiu de casa, até que você ficou
um pouquinho inteligente!
Montecchio
Também pudera, do jeito que o
papai queria que eu ficasse de quatro, até já estava acreditando que eu era um
burro. Escuta maninha, o papo está bom, mas você não preferiria conversar aqui
dentro?
Isabel
(Fora de cena) É claro, mas você só acertou metade. Você não gostaria de
adivinhar quem mais está aqui comigo?
Montecchio
É claro, me dê uma pista, mas
que seja sobre a pessoa e não sobre a minha bunda.
Isabel
(Fora de cena) Éééé,... Deixa eu ver... Já sei! Eu não sei se eu gosto mais
de você ou dele!
Montecchio
Meu “Deus”, finalmente eu vou
ter a honra. (Abre a porta) Isabel, minha querida. (Beija-a) Sabia
que você é minha irmã preferida?
Isabel
É lógico, eu sou sua única
irmã. Bem, este é...
Montecchio
(Interrompendo-a)
Capuleto.
Capuleto entra. Ele e Montecchio olham-se
demoradamente.
Montecchio
Então é você?
Capuleto
Talvez.
Isabel
Pode dizer que é. Eu disse que
você é o homem mais maravilhoso que existe na face da Terra.
Montecchio
Eu não acreditei. O homem mais
maravilhoso da face da Terra e do resto do Universo também, mora ali no espelho
do meu banheiro.
Riem. Montecchio e Capuleto cumprimentam-se
apertando as mãos demoradamente.
Montecchio
Vamos entrar, vamos entrar, gente. Sentem-se.
Isabel e Capuleto sentam-se no sofá. Montecchio
permanece de pé.
Montecchio
Poxa, se eu soubesse que vocês eu teria colocado o
meu “smoking”!
Isabel
De que adiantaria? A hora que
você abrisse a boca iria ficar a má impressão do mesmo jeito.
Capuleto
Engana-se, Isabel. Eu estou gostando do seu irmão.
Isabel
Ele engana bem.
Montecchio
(Fingindo-se de
ofendido) Poxa Isabel, desse jeito ele vai pensar que
eu não sou maravilhoso!
Riem.
Capuleto
Não se preocupe Montecchio, ela
o acha maravilhoso, só que você devia ter perguntado enquanto ela estava do lado
de fora. Isabel só elogia alguém quando há uma porta entre ela e a pessoa.
Riem.
Isabel
Como pode? Se conhecem a
menos de cinco minutos e já se uniram contra mim! (Faz
cara de criança triste)
Montecchio
(Ajoelha-se ao lado da
irmã e a abraça) Que isso, maninha! (Beija-a)
Você sabe que é minha irmã predileta. Eu sempre disse que nasci assim sem graça
porque papai e mamãe colocaram todo o encanto que tinham em você.
Isabel
Ai, que irmãozinho maravilhoso que eu tenho!
Montecchio
Está vendo Capuleto, para você
arrancar um elogio dela não é necessário uma porta, basta apenas falar algumas
mentirinhas.
Riem. Isabel empurra Montecchio que cai sentado no
chão e ali permanece.
Montecchio
E então, Capuleto? Eu imagino como você deve estar
se sentindo, para mim sempre foi muito chato quando eu tinha que conhecer o
irmão de minhas namoradas.
Capuleto
É, mas dá para agüentar.
Montecchio
No dia em que o irmão delas me
conhecia, ele me apertava a mão, me oferecia uma bebida,... Você aceita uma
bebida?
Capuleto
Não, não. Obrigado.
Montecchio
Então ele me oferecia uma
bebida, apertava a minha mão no primeiro dia e a partir do segundo dia ele já
queria apertar o meu pescoço e eu já não aceitava mais a bebida com medo dele
ter colocado veneno dentro dela. Bom, de acordo com o “manual de procedimentos
dos irmãos” o veneno só pode ser colocado a partir da segunda visita e hoje é a
sua primeira visita, portanto, hoje você pode aceitar que não existe risco
nenhum.
Capuleto
(Sorri) Eu não sei não ! Eu
já fui envenenado logo no primeiro dia.
...por
enquanto é só
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