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A cultura e a personalidade na determinação do comportamento humano

Que a maior dita dos filhos da terra seja somente a personalidade 1

1. West-östlicher Divan, Buch Suleika ("O divã ocidental-oriental")

(GOETHE)

 

 

Carl Gustav Jung, em relação à citação acima de Goethe, coloca que a busca do ser humano pela sua identidade é a busca da totalidade encerrada em si mesmo. Partindo deste ponto de vista podemos entender a inter-relação inevitável da cultura na formação do indivíduo, pois a cultura como uma “totalidade” é meio e fim na determinação da identidade do sujeito que, individualmente, busca o mesmo papel da própria cultura que é a identidade. A cultura atuando como uma “totalidade externa” da sociedade e a endocultura atuando como uma “totalidade interna” do indivíduo. Tanto a sociedade quanto o indivíduo, por se acharem distantes da totalidade, visto esta ser impraticável por ser dinâmica, e ao mesmo tempo em razão deste dinamismo a totalidade ser “transformada” e “transformadora”, coloca a sociedade e o indivíduo sempre como buscadores desta “totalidade” (entendo-se por “totalidade” o ápice, o melhor, o harmonioso, o “perfeito”), e esta busca num sentido social coloca a cultura como sendo a “personalidade” do grupo social adotando “comportamentos” (por meio de normas), fato que acontece “individualmente” com o homem, que nesta mesma busca de “totalidade” e “em razão da” e “através da” sua “personalidade” adota “comportamentos”. Essa correlação de grupo e indivíduo movidos por meios e fins que se associam, se relacionam e se complementam é a inter-relação que existe entre cultura e personalidade como determinantes do comportamento humano, sendo a “cultura” a determinadora da personalidade de um grupo, e a “endocultura” a determinadora da personalidade do indivíduo, e a personalidade sendo a “determinadora” do “comportamento”. Um fazendo o outro num total holismo.

A antropologia quando aliada à psicologia possibilita o estudo “ideal” deste tema: a primeira estudando a “personalidade social” na forma da “cultura”, e a segunda estudando a “personalidade individual” na forma da “endocultura”. Ambas complementando-se e servindo como instrumento da outra.

Exemplo desta interação e inter-relação da tríade: cultura-personalidade-comportamento, é o fim (ou enfraquecimento) da dicotomia “capitalismo x socialismo”. Quando estes dois sistemas “disputavam” uma hegemonia, cada partidário destas moldava sua personalidade num processo de “afinação” com a ideologia escolhida (na maioria das vezes “imposta”), e a partir do molde apreendido comportava-se de acordo com a sua ideologia.

Cultura fazendo endocultura, personalidade gerando comportamento, indivíduo fazendo cultura. Esta interação, inter-relação e modus operantis da tríade: cultura-personalidade-comportamento faz com que estudar a cultura sem o indivíduo ou o indivíduo sem a cultura, seja além de impossível, também um contrassenso, pois um grupo social não existe sem o “agrupamento” dos indivíduos, e o indivíduo em si, sem estar num grupo é um agente estéril culturalmente, e sem a possibilidade de “agir culturalmente” fica incapacitado de desenvolver uma personalidade (pois para quê buscar individualidade se o sujeito está sozinho?), e como consequência será errônea a tentativa de se entender o “comportamento” tanto do grupo quanto do indivíduo se dissociarmos grupo e indivíduo. Diante do exposto podemos concluir que os elementos fundamentais: indivíduo, sociedade e cultura, somando-se aqui o espaço geográfico em que vivem e existem são fatores determinantes do comportamento humano. Como exemplo da atuação do espaço geográfico podemos colocar uma criança nascida no espaço geográfico chamado Brasil que é levada para o espaço geográfico chamado França. A criança apesar de biologicamente e hereditariamente brasileira será endoculturada na França e apreenderá a língua e os costumes franceses. Mas é importante citar que a endoculturação sofrida pelo indivíduo o “enquadra” em determinada cultura, porém não anula a sua singularidade.

O indivíduo com sua identidade (personalidade) única, age (comporta-se) no seu meio ambiente sociocultural, e apesar do grupo em que vive estabelecer regras de conduta e normas, o indivíduo é único e diferente de todos os outros, fato declarado como vital por Jung, ao estabelecer em sua teoria do desenvolvimento da personalidade a importância dessa diferenciação de indivíduo para indivíduo, colocando que os grandes fatos da humanidade e da nossa história aconteceram movidos por grandes líderes, ou seja, por personalidades diferenciadas e seus comportamentos diferenciados. A sociedade “massifica”, mas o homem desenvolve a sua diferenciação, ou seja, a sociedade ao determinar comportamentos grupais não “anula” o comportamento individual, ao contrário, o complementa. A cultura com as suas normas e padrões alimenta a personalidade do indivíduo, ou seja, o endocultura. O meio pode ser o mesmo, a estruturação biológica pode ser similar e a cultura oferecida ser também a mesma para um grupo, colocando simultânea e igualmente os mesmos padrões e normas, mas, ainda assim, o indivíduo cria a sua personalidade única e comporta-se, por vezes conflitantemente, atendendo ao grupo e a si mesmo.

Citando ainda Jung, agora sobre o processo de individuação do homem, diz ele: em seu sentido estrito o processo de individuação só é real se o indivíduo estiver consciente dele e, consequentemente, com ele mantendo viva ligação. Segue ainda citando: Mas o homem, certamente, é capaz de participar de maneira consciente do seu desenvolvimento. Chega mesmo a sentir que, de tempo em tempo, pode cooperar ativamente com ele, tomando livremente várias decisões. E esta cooperação pertence ao processo de individuação, no seu sentido mais estrito.

Jung coloca-nos que no processo de individuação a participação do homem é “consciente”, que pode “cooperar ativamente” e que este livremente “toma decisões”, denotando assim porque um indivíduo diferencia-se de outro, pois ao tornar-se agente consciente do seu desenvolvimento singulariza a sua personalidade e seu comportamento.

Focando ainda a inter-relação da cultura e da personalidade na determinação do comportamento humano vemos na “síntese dialética” do marxismo que “as transformações qualitativas ocorrem por meio desta síntese e é a partir dos elementos existentes em uma situação que os fenômenos novos aparecem”, ou seja, a cultura e a endocultura modificando e sendo modificadas. Tal conceituação demonstra como a cultura e a personalidade movem o agir do indivíduo, ou seja, determina o seu comportamento. Vigotsky também alicerçava suas obras neste conceito.

Marx e Engels idealizavam que o real para ser compreendido, que o homem para entender-se e que a construção do seu conhecimento eram processos e que o indivíduo concreto na luta pela sobrevivência organiza-se em torno do trabalho estabelecendo relações entre si e a natureza, e sendo um ser criado pela natureza e submetido às suas leis, o homem se diferencia dela na medida em que é capaz de transformá-la conscientemente segundo suas necessidades. É através desta interação e inter-relação que o homem se faz homem. Nesta concepção a compreensão do indivíduo se dá na compreensão da sua relação com a natureza e desta com ele. Segundo os conceitos de Marx e Engels, os processos da vida social, econômica e política são inter-relacionados com o processo da vida material, e assim o desenvolvimento da consciência do homem, e consequentemente sua personalidade, está inter-relacionada com as atividades de produção material e o intercâmbio entre os homens, ou seja, o indivíduo que produz conhecimento não é apenas um mero receptor que contempla o real, este indivíduo é também um agente ativo na sua relação com o mundo, e que o conhecimento (endoculturação) é um processo dinâmico de atuação do homem, e esta atuação é a expressão do que o indivíduo é, de como ele se comporta. Vigotsky, afinado com estes conceitos, conceituava que “o processo de apropriação do conhecimento se dá nas relações reais do sujeito com o mundo e que estas relações não dependem da consciência do sujeito individual, mas são determinadas pelas condições histórico-sociais concretas nas quais ele está inserido e também pelo modo como sua vida se forma nestas condições”.

 

Conclusão

Diante de tudo isso, é possível concluir que a cultura através da sociedade com suas relações, produções e normas determinam o comportamento do homem, visto ser esta inter-relação que forma a sua personalidade, e que esta ao identificar e diferenciar o indivíduo é o agente determinador do comportamento do indivíduo ao motivar as suas ações. Plena interação e inter-relação.

Concluímos também que a cultura exerce importante papel na formação do indivíduo, mas que o indivíduo também tem autonomia (apesar de não ser plena) na sua formação e atuação (comportamento).

Concluímos também que o indivíduo somente encontra individuação ao socializar-se, e que o indivíduo ao viver, seja quando recebe conhecimento, seja quando produz algo, seja quando se relaciona, enfim, ao “agir”, é que ele passa a existir culturalmente, e que ao se inter-relacionar é que se expressa como “ser singular” através da sua personalidade e do seu comportamento.

É importante a ampliação da visão sobre o ser humano, vendo-o não somente como um indivíduo encerrado em si mesmo, mas também como um ser inserido e atuante em seu meio e cultura, compreensão esta que nos permite entender que a abordagem junto aos nossos deve ser bem mais ampla, procurando entender a pessoa através da sua história de vida, do meio que vive e viveu, das condições que tem e teve, enfim, do seu mundo interno e externo, do seu universo e do seu "euniverso".

(Paulo Rogério da Motta)