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Filme


 


Quanto vale ou é por quilo ?

 

As notícias são construídas no filme de modo a propagar a distribuição de renda, a luta contra a desigualdade, a responsabilidade social e a solidariedade tendo como ferramenta o marketing. Ressaltando-se que o objetivo final e real é apenas o de mover uma indústria que explora a miséria e os miseráveis. Campanhas exaltando esses temas são veiculadas conclamando a sociedade a auxiliar o terceiro setor a cuidar dos excluídos socialmente e estimulando a captação dos recursos por este setor associando a imagem daquele que colabora, seja como empresa seja como colaborador individual, como um parceiro na luta contra a desigualdade social.

 A mensagem do filme baseia-se na questão de valores humanos em contraponto com valores econômicos. As notícias atendiam a todos que queriam obter esses valores econômicos em detrimento dos valores humanos: entidades do terceiro setor, agências de comunicação (marketing) e empresas que queriam ser associadas a causas humanitárias. As notícias acabavam por atender aos interesses daqueles que queriam se aproveitar da motivação humanitária (auxílio aos desfavorecidos) utilizando esta motivação para a captação de recursos que, em sua maior parte, teria como fim as mãos daqueles que exploram (motivação econômica).

As questões econômicas e raciais são tratadas de modo a associar a antiga escravidão aos atuais excluídos, a antiga senzala à atual periferia. Situa o Estado como sendo conivente ou agente que alimenta a continuidade desse processo de exploração dos desfavorecidos para o sucesso daqueles que mantém o poder. Os “coronéis” da época da escravidão hoje são as pessoas que detém o poder econômico, político e da comunicação. Os escravos do passado são no presente a massa de desfavorecidos nos subúrbios. Situação que pode ser representada simbolicamente com a elite dominante sendo a pequena ponta superior de um triângulo que se sustenta encima de uma grande base de excluídos. A massa de excluídos é representada no filme em grande parte como sendo constituída de pessoas negras denotando que apesar da passagem dos anos e da abolição da escravatura que o racismo, apesar de velado, ainda é existente na atualidade.

Reflexões:

A história do passado é uma repetição no presente. Tudo acontece em um novo contexto, porém seguindo um mesmo enredo. A realidade do antes não mudou no hoje: miséria, escravidão ao sistema vigente, prisão, inversão de valores, desigualdade são pontos explorados no filme e que fazem parte dos nossos dias atuais. O ser humano vivendo sua história com base no capital, no poder de consumo, na obtenção de riquezas são problemas que adoecem a nossa sociedade e fazem com que a exploração encima de muitos mantenha o poder e a riqueza nas mãos de alguns poucos. Os personagens do filme podem ser encontrados na realidade do nosso país. O filme pode ser visto como uma proposta de colocar em paralelo o Brasil do fim século XIX e o Brasil de hoje.

"O que vale é ter liberdade para consumir, essa é a verdadeira funcionalidade da democracia". Essa frase proferida por um dos personagens indica o peso que o consumismo tem para os personagens do filme. A teoria do consumo preconiza que o consumo é objeto de uma preocupação que engloba uma série de problemas, tanto de fundo psicológico quanto de fundo econômico e social. O filme gira sempre em torno do contraste de valores morais (oriundos da sociedade) e valores econômicos e o que é mercadológico sempre prevaleceu no enredo do filme. O fator psicológico é indicado no filme ao nos mostrar a concepção atual e reinante de que “aquele que mais tem” é “aquele que mais é”, um paradoxo enganoso já citado por Erich Fromm, onde existe a correlação entre o “ter” e o “ser”. O filme se passa num contexto capitalista que gera um mercado operado pela pobreza onde as engrenagens são movidas pelo consumo.

 

Paulo Rogério da Motta


 

 

 


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