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Nell

 

 

 

O contato inicial de Nell com o “mundo civilizado” e as pessoas é traumático e assustador e Nell tem nesse contato inicial uma situação parecida com a de um bebê que é arrancado do paraíso da barriga de sua mãe, porém a situação de Nell é muito mais visceral, pois a gestação em seu paraíso tem 30 anos e ela foi arrancada do seu paraíso justamente com a morte de quem lhe deu a vida. O mito da Fênix é vivido por Nell, pois ela tem que renascer das cinzas, que é a morte da sua mãe.

A estória de Nell também remete-nos à analogia da estória de Buda, que vivia em mundo cercado por muros e via somente o que lhe era apresentado por seu rei e pai, e que ao ter contato com o mundo real descobriu nele a dor, a doença e a morte. A saga de Nell assemelha-se à trajetória de Buda num contexto simbólico, pois nossa protagonista vivia num mundo idealizado por sua mãe, onde tanto seus desejos quanto seus medos eram movidos pela cultura que lhe fora imposta até então.  Assim como Buda, ela chocou-se num primeiro momento, e assim como ele, depois decidiu por assumir a realidade do mundo e das pessoas, e percebeu que a “realidade” que há em nós nem sempre é a mesma realidade que nos rodeia, e que a cultura que apreendemos tanto pode ser óculos que nos fazem enxergar melhor, como também pode ser cabresto que limita a visão do que nos cerca.

O contato de Nell com o “mundo civilizado” é uma exposição visceral do que é relativismo cultural. Embora todos sejam movidos por alguns princípios comuns, como: querer o bem-estar do próximo, liberdade, tolerância, solidariedade e tantos outros, é a nossa cultura quem determina o nosso comportamento, atitudes e julgamentos. As transformações experimentadas por Nell espelham a trajetória da vida humana em algumas das suas fases:

-a infância com um mundo voltado ao aprendizado através de sensações e percepções;

-a adolescência com a descoberta da sexualidade, com o conflito do que se era com o que somos;

-a maturidade quando de posse de maiores conhecimentos passamos mais tempo com nossas reflexões.

Nell representa a trajetória que percorremos quando adentramos algum mundo novo na forma de uma situação inédita que vivemos.  Nell também é a presença viva da sensibilidade, ternura e simplicidade como fontes de vida e nos mostra que esta tríade  pode amenizar a sede de quem nos rodeia e ao mesmo tempo matar a sede de nossa alma.

 Nell é um filme com conteúdo riquíssimo para a antropologia e para a psicologia, com uma atuação maravilhosa de Jodie Foster que uniu intensidade e delicadeza construindo uma personagem impossível de ser esquecida. A estória da “menina-mulher selvagem”, fruto da violência humana (estupro), que tem sua vida restrita à mãe, à irmã e à sua floresta. Isolada de tudo mais que há no mundo vê nas duas únicas pessoas de seu mundo o meio de expressar seus sentimentos. A mãe, vítima de um derrame lhe ensina uma linguagem própria e singular que a diferencia ainda mais de todas as pessoas. Nell conhece a perda com a morte da irmã gêmea e depois com a morte da mãe. Ela vive um luto que só é assimilado quando renasce para o novo mundo. Conhece a diversidade do ser humano e de sua cultura. Descobre que no mundo existem outros seres humanos e que estes podem tanto assustá-la como também podem ser amados. Vive com o Dr. Lovell e a Dra. Paula um pouco da infância e da típica vida familiar que não teve. Mostra para as pessoas que a delicadeza e a ternura são componentes presentes em todos os seres humanos e que vivê-los fazem bem a nós e a quem nos rodeia. Mostra através do contato com Mary (esposa do policial) que o medo é um inimigo íntimo e que nós podemos vencê-lo ao nos depararmos com sentimentos que o substituam em nós. Nell é um filme que delineia a linha que hoje divide a ciência do humanitarismo e que mostra que o caminho é o da união, da interação. Nell é um filme que mostra o papel da cultura e a sua atuação em cada indivíduo e o papel que esta exerce em nossa vida, em nossa sociedade.

Nell é um filme que pode ser simbolizado em duas expressões. Uma é: “Tudo vale a pena quando a alma não é pequena”. E a outra expressão é:”Doana kee. Missa chickabee”, que pode não ter sentido aos ouvidos, mas que para quem assistiu Nell é uma frase que pode ser traduzida pelo coração.

(Paulo Rogério da Motta)