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Filme


 


A.I. - Inteligência artificial

Trailer

 

Entendemos por inteligência as construções cognitivas que formam a razão do ser humano, possibilitando-lhe ser o único animal “racional”.

A inteligência artificial é uma inteligência construída pelo homem com a finalidade de que esta inteligência artificial simule a inteligência natural do homem. Mais do que “conceber” uma inteligência à máquina, o homem busca “humanizar” a máquina e vejo neste propósito o real “porque” da I.A. O homem ao ver-se à imagem e semelhança de Deus procura também desempenhar o papel do seu Criador, buscando ser como o seu Deus. A I.A. que se originou na década de 40 com o estudo do funcionamento do cérebro com o intuito da compreensão do comportamento humano bifurcou-se em dois caminhos: um biológico baseada no estudo do cérebro e dos neurônios; e o outro psicológico onde se estuda a cognição e o raciocínio.

 

O filme I.A. norteia-se nesta busca do homem e o menino-robô David é o espelho de tudo isso. Nele há a inteligência artificial porque ela não lhe é “natural”, porém a sua forma de atuação é de “natureza” humana, permitindo ao menino-robô a cognição e os sentimentos humanos. Em David há a percepção do que lhe cerca, o planejamento e as estratégias para consumação de objetivos e a existência da personalidade. Tudo isto aliado à racionalidade, que faz com o menino-robô desenvolva em si a característica humana da “individualidade”, tornando a sua “inteligência artificial” tão natural e humana que no decorrer do filme David se apresenta aos nossos olhos como um menino, e não como uma máquina. Passagens do filme mostram em David uma endocultura humana desenvolvida primeiramente numa vida familiar e “alargada” depois através das relações sociais. Vemos também que David para se tornar um “indivíduo” procura interagir com e como os seres humanos e ser aceito “culturalmente” como um igual entre os seus. Diante de tudo isso, diante desta “humanização” da máquina, a pergunta motivadora dessa dissertação do “por que inteligência artificial?” passa a ser um questionamento mais do que científico, e passa também a ser um questionamento filosófico, pois apesar do “ser pensante” ser um robô, suas ”motivações são muito humanas”, e se esquecermos por um instante que David é um menino-robô e vermos somente seu comportamento e aspirações, neste instante não conseguiremos entender porque a inteligência de David é “artificial”.

 

Simbolismos de David

Johan Huizinga, um historiador holandês, definiu  em seu livro “Homo Ludens”, o “jogo” como “uma categoria absolutamente primária da vida, tão essencial quanto o raciocínio (Homo Sapiens) e a fabricação de objetos (Homo Faber)”. Nesta definição de Huizinga podemos vislumbrar porque o filme “joga” com os simbolismos retratando o objetivo de David ao vermos o lado lúdico do menino-robô e sua fantasia, que para ele sempre foi um “objetivo”, de virar um “menino humano”, e o simbolismo de “jogar” aqui assume os papéis de “viver, sonhar e buscar”. O objeto fabricado (Homo Faber), o ser racional (Homo Sapiens) e o lúdico da vida (Homo Ludens) são ingredientes de David. Vejo no fato de David ser uma criança, uma escolha muito inteligente, pois o filme expressa um “conto de fadas” e estes se destinam às crianças, e a criança ao viver um conto de fadas “brinca”, porém o “brincar” para a criança é algo sério, e ao afastar-se da realidade para poder “brincar”, a criança vive a “sua verdade” e a “sua realidade”, e David vivia a sua verdade e a sua realidade, e tornar-se uma criança humana era o seu “conto de fadas”, portanto o seu “brincar” sério. Para David o conto de fadas era a verdade e a realidade. Penso que a busca dos “simbolismos” na trajetória de David visaram expressar o mundo lúdico das crianças e esta escolha fez com que David se tornasse mais “humano” aos nossos olhos. David é um “menino-robô” que carrega em si aspectos da criança e passa assim a ser também um “símbolo” do que é “ser” humano, suplantando inclusive o menino de madeira Pinóquio que no filme representa a figura mítica e o ideal de realização para David . Ainda citando Huizinga e seu livro, ele diz que “todas as atividades humanas, incluindo filosofia, guerra, arte, leis e linguagem, podem ser vistas como o resultado de um jogo, ou, para usarmos a terminologia técnica, “sub specie ludi” (a título de brincadeira)”.  Os simbolismos contidos no filme associados aos contos de fada retratam em forma de analogias a “brincadeira” de viver e de ser humano.

O fato torna-se mais interessante ainda ao buscarmos o significado que o Dr. Huizinga encontrou de “jogar” em japonês que é asobu e é usado para designar recreação, relaxamento, diversão, passeio ou excursão, dissipação, jogos de azar, andar à toa ou estar desempregado e também significa estudar na universidade ou com um mestre; igualmente envolver-se em combate simulado; e por último, participar nas formalidades muito estritas da cerimônia do chá. Segue ele falando que a extraordinária severidade e profunda seriedade do ideal de vida japonês são encobertas pela alegoria elegante de que tudo é apenas um jogo... A forma polida de dizer ”você chega a Tóquio” é, literalmente, “você brinca de chegar a Tóquio” e em vez de “soube que seu pai morreu”, “soube que seu pai brincou de morrer”. Interagindo com esta visão dos japoneses podemos dizer que “David brincou de ser humano”.

 

Os sentimentos humanos no filme

Porque sempre que o ser humano for o assunto em questão ele será configurado através de suas ações e os sentimentos são os agentes motivadores das suas ações. Desde o seu nascimento o homem é endoculturado e cria em si regras, condutas, princípios, aspirações e mecanismos de defesa que passam a ser os guias de suas motivações e comportamentos, enfim, o homem é um ser que carrega em si todo um arsenal de sentimentos e estes se expressam em polaridades distintas: positivos ou negativos, ou, bons ou maus. O “circo dos horrores” dos humanos ao exterminarem os “mecas” em um show que nos remete inevitavelmente a associar às arenas romanas da antiguidade “mascaram” o instinto de sobrevivência e mesclam nessa “necessidade” de serem supremos no planeta uma crueldade e se aprofundarmos mais ainda tudo isso, podemos apostar que esta “crueldade” do ser humano tem como raiz o medo e a não aceitação do que é diferente, ou seja, o homem criou os mecas e passou a temer a sua própria criação. Tal procedimento também pode ser visto em Henry e Monica, onde a não aceitação e o medo foram determinantes para a exclusão de David de suas vidas. O homem, por vezes, na sua ânsia de ser sempre supremo e superior, ergue muros ao redor da sua compreensão e boa vontade, e os muros chegam a se tornar tão altos que a única visão que ele passa a ter é o seu próprio umbigo e este passa a ser o centro do seu universo. Concepções são vividas e são distorcidas para se encaixarem na conveniência de seus pensamentos, aspirações e medos. Neste filme produzido por Steven Spielberg, que foi idealizado por Stanley Kubrick e baseado no conto “Supertoys Last All Summer Long” (Superbrinquedos duram todo o verão) de Brian Aldiss, I.A. apresenta um quadro interessante e que permite reflexões profundas sobre o comportamento humano ao mostrar uma máquina sendo mais humana que a humanidade que a cerca e a conclusão do filme, num tempo mais futuro ainda, mostrando o planeta tendo como habitantes uma população de máquinas demonstra aonde o processo autofágico da humanidade pode chegar. Na ânsia da supremacia e da preservação perde-se o rumo e em saltos que almejam voar o destino pode ser a queda em precipícios. O caminho da humanidade no filme assemelha-se ao mito de Ícaro, que deslumbrado pelo seu vôo esquece-se do bom senso e permite que o sol derreta a cera que colavam as asas dos seus sonhos. Cabe aqui também o mito de Narciso para a humanidade no filme que se viu afogada em sua própria imagem. I.A. vem a ser um filme que permite tais reflexões e o papel da sétima arte, como fazedora de cultura, é exercido ao mostrar através da ficção as possibilidades do que poderá vir a acontecer. O homem em sua evolução (por vezes perigosa) passa a substituir a mitologia pela ciência, e antes o que eram presentes dos deuses (como o fogo dado a nós por Prometeu) hoje são agentes motivadores da ciência. Hoje o homem não busca mais com tanta insistência os presentes divinos. Hoje o homem prefere fabricar os seus presentes, e como em toda ação humana há uma imensa gama de sentimentos envolvidos, urge a nós a necessidade de também “evoluirmos sentimentalmente”, pois diante da potencialidade humana conduzir o veículo da história sem sabermos usar positivamente os sentimentos coloca-nos numa condução sem freios. Vejo aqui um papel importante para a arte, o de preservar e incentivar no homem os seus bons sentimentos e valores e mais, o de alertar os riscos que existem ao levarmos a vida somente com os olhos frios das realizações que buscamos. Tomara que estórias e personagens como Pinóquio, Blade Runner, O mágico de Oz, Matrix e I.A. consigam manter acesa a chama do humanitarismo e alertar-nos dos perigos da racionalidade fria. Hoje cabe à arte também exercer o papel que antes era exercido exclusivamente pela mitologia. No filme I.A., como em todo artefato cultural destinado a expressar o humano, sempre encontraremos a expressão dos sentimentos humanos, sejam eles bons ou maus, pois desde o Gênesis até o Apocalipse a história do homem sempre será movida pelos seus sentimentos.

Paulo Rogério da Motta


 


 

 

 

 

 

 


 


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