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Contos proibidos do Marquês de Sade

 

 

 

 

O filme “Contos proibidos do Marquês de Sade” aborda os últimos anos da vida do Marquês de Sade (Geoffrey Rush) que foram passados num hospício em razão da sua natureza violenta oriunda da sua impulsividade sexual (sendo inclusive o termo psiquiátrico “sadismo” definido a partir dele). O interessante no filme, além de mostrar os distúrbios de comportamento em relação ao sexo, é também a maneira como o filme nos conduz fazendo com que até simpatizemos com o Marquês, desnudando ele aos nossos olhos não somente como um psicopata, mas também como “um homem que busca a satisfação através da liberdade e da expressão e colocando o seu prazer acima de tudo”. Aqui vemos a força que a arte pode exercer na sociedade. O cineasta Philip Kaufman (o mesmo de “A insustentável leveza do ser” e “Sol nascente”) trata com engenhosidade ao mostrar ao mesmo tempo o “comportamento” do Marquês junto com a hipocrisia da sociedade de época, e principalmente por fazer do algoz do Marquês, que é o representante do governo, da sociedade e do (falso) moralismo da época como uma figura mais obscena do que o próprio Marquês de Sade em relação ao caráter. O algoz de Sade, Royer-Collard (brilhantemente interpretado por Michael Caine) é o ícone da moralidade social da época, porém o seu comportamento é permeado de perversões, seja na forma de torturas aos seus “pacientes”, seja no erotismo egoísta e impositivo junto á jovem esposa. Já a conduta do Marquês de Sade, apesar de reprovável, acontecia de forma clara, sincera e à luz do dia e dos olhos da sociedade. Aqui percebemos a sagacidade de Kaufman ao mostrar a “obscenidade de caráter” de Collard na forma das torturas que impunha aos “pacientes” ou ao subjugar sexualmente sua esposa, causando uma antipatia nos espectadores, e ao “não mostrar” totalmente a personalidade do Marquês de Sade, como no exemplo da simples citação e não da exposição em imagens da situação em que o Marquês torturou uma viúva quando ao lhe dar carona em sua carruagem a ameaçou com faca e a chicoteou por diversas vezes. Destaco também dois personagens que retratam bastante do conteúdo do ser humano: o bondoso e bem-intencionado padre Coulmier (Joaquin Phoenix) que se corrompeu moralmente e termina o filme como o “seguidor” do Marquês e a bela Madeleine (Kate Winslet) que ao melhor estilo “freudiano” mostra a libido contida em todo ser humano.

(Paulo Rogério da Motta)