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Quero escrever o borrão vermelho de sangue

(Clarice Lispector)

 

 

 

 

Quero escrever o borrão vermelho de sangue
com as gotas e coágulos pingando
de dentro para dentro.
Quero escrever amarelo-ouro
com raios de translucidez.
Que não me entendam
pouco-se-me-dá.
Nada tenho a perder.
Jogo tudo na violência
que sempre me povoou,
o grito áspero e agudo e prolongado,
o grito que eu,
por falso respeito humano,
não dei.


Mas aqui vai o meu berro
me rasgando as profundas entranhas
de onde brota o estertor ambicionado.
Quero abarcar o mundo
com o terremoto causado pelo grito.
O clímax de minha vida será a morte.


Quero escrever noções
sem o uso abusivo da palavra.
Só me resta ficar nua:
nada tenho mais a perder.
 

 

Poema de Clarice Lispector arranjado pelo Padre Antonio Damázio

in: BORELLI, Olga. Clarice Lispector – Esboço para um possível retrato. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1981, p. 65

(www.secrel.com.br/jpoesia)